Ano 1- Nº 13 - Dezembro - Campinas, Quarta-feira, 29 de dezembro de 2004

O celular que atrai e ameaça
JOSÉ APARECIDO MIGUEL


Antena de operadora em Campinas: potência de radiação limitada
CHRISTIANO MAZZOLA
Telefone celular faz mal à saúde? Esta questão recorrente, num mundo de milhões de telefones celulares, é polêmica. Fica para o usuário a decisão final.

Antenas de celular – as chamadas Estações Rádio Base (ERBs) – fazem mal aos seus vizinhos e operadores?

A questão é paralela e, certamente, envolve posicionamento de poderes públicos. Uma imagem contra o telefone celular: na série A Diarista, da TV Globo, em novembro, uma dona de casa de estilo “progressista”, “defensora da ecologia”, ao ver a empregada no celular, pede que o desligue, pois é “uma arma que emite radiações mortais”. Uma imagem positiva: o filme de suspense Celular – Um Grito de Socorro, com Kim Basinger, Chris Evans, William H. Macy. O roteiro mostra um homem que recebe um telefonema anônimo, que o faz ajudar uma vítima de seqüestro, por meio de um celular.

Objeto do desejo de milhares de consumidores, o celular já tem conexão com Internet, toca música, tem jogos e permitirá proximamente que o usuário assista a programas de televisão aberta. Já existe um protótipo em testes. É o Motorola V400-TV, da empresa da marca que tem o Campus Industrial e Tecnológico de Jaguariúna, na Região Metropolitana de Campinas.

Levantamento de novembro da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), que há um total de 59,5 milhões de aparelhos em uso no Brasil. Há, assim, 33 celulares para cada grupo de cem habitantes. A maior concentração está em Brasília: 90 por grupo de 100 habitantes. O Dia da Criança, segundo a Anatel, foi um dos motivos para o aumento na comercialização de celulares no mês de outubro.

Um dos principais críticos do celular e de suas antenas, as ERBs, é o coordenador-executivo da Associação Brasileira de Defesa dos Moradores e Usuários Intranqüilos com Equipamentos de Telecomunicações de Celular (Abradecel), o advogado João Carlos Rodrigues Peres. Ele afirma que a posição da entidade – definida no Fórum Social Mundial de 2003, em Porto Alegre – é pela imediata aplicação do Princípio de Precaução, em relação aos impactos dos campos eletromagnéticos não-ionizantes, as chamadas radiações das antenas, sobre o homem e a natureza. Assim, quer já, para as antenas, o estabelecimento de zonas de exclusão e de proteção a populações sensíveis e de atividades e locais que a sociedade quer preservar, como escolas, creches, maternidades, hospitais, asilos, bairros residenciais estritos, patrimônios histórico-culturais, locais de grande aglomeração humana.

Na opinião de Peres, os riscos são efetivos para quem se expõe às radiações de torres e pelo uso dos telefones celulares por períodos prolongados e de forma habitual.

“Os próprios efeitos térmicos citados pela Organização Mundial de Saúde (OMS), já são suficientemente lesivos e impõem a necessidade de normas de precaução e limites de radiações, sejam casos de curta e de longa exposição a elas.

O presidente da Abradecel aconselha: os usuários do celular não devem substituir o telefone fixo, “muito mais barato”, pelo móvel. “Deve-se falar o estritamente necessário, de forma a expor-se no máximo a seis minutos por dia, como recomendou uma pesquisa feita para a Ericsson no Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecom u n i c a ç õ e s (CPqD), de Campinas.Crianças e adolescentes, pela espessura da sua caixa craniana e pelo estágio de desenvolvimento, não devem usar aparelhos celulares, salvo em situações de extremo perigo, como é recomendado pela União Européia”, acrescenta. A pesquisa citada por ele custou na época cerca de R$ 1 milhão, como mostra o site da entidade www.abradecel.org.br

Na opinião de Peres, o usuário deve evitar aparelhos sem antenas e abri-las no limite antes de falar, mantendo o aparelho afastado “uns três centímetros” da orelha, trocando de lado a todo instante. “Mais: utilizar fones de ouvido e não carregar o celular junto ao corpo, mantendo- o a pelos menos um metro de distância. As baterias devem ser carregadas em locais isolados. Mesmo em stand by, o celular emite continuamente um sinal de comunicação inaudível com a antena mais próxima”, alerta.

Representante da sociedade no Conselho Consultivo da Anatel, www.anatel.gov.br , Peres afirma que, no Brasil, a própria agência, ao longo da sua história, tem se posicionado contra a sociedade e lavado as mãos com as preocupações sobre os efeitos das radiações.

POTÊNCIAS DESPREZÍVEIS?

O professor titular da área de comunicação sem fio da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Michel Daoud Yacoub, dá sua opinião considerando “o nível de conhecimento que temos hoje sobre antenas e telefones celulares”. Ele lembra que a pessoa normalmente fica bem longe das antenas de celulares, enquanto a potência de radiação dela cai muito rapidamente com a distância. “São montadas em alturas de 20, 30 metros, dependendo da localização. A potência que chega no usuário é muito pequena, então são níveis desprezíveis. E a Anatel obriga o controle das radiações”, explica. No caso do celular, segundo ele, o risco é diferente. “O fato de encostar na cabeça, aí sim é preciso fazer estudos. As pesquisas são controversas, então não dá pra dizer que faz mal ou não”. Michel Yacoub argumenta com o nível de conhecimento que temos hoje, destacando que os próprios cientistas divergem a respeito dessas opiniões. Para ele, a tendência é a ampliação da quantidade de antenas de celular. “Quanto mais antena tiver, menor é a potência que ela vai irradiar, então é até bom. Teremos várias antenas com potência muito pequena. A tecnologia digital, por sua vez, permite que as potências dos próprios celulares sejam cada vez menores”.



Publicado em 26 de novembro de 2004







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