Quem nunca curtiu aquele aconchego gostoso nos braços da pessoa amada no friozinho do ar-condicionado do cinema, que atire a primeira pedra. Mas o aparelho simpático aos casais enamorados no ápice da paixão se transfigura em verdadeiro vilão da guerra dos sexos nos ambientes de trabalho. O liga-e-desliga da refrigeração, em dias equivalentes a alto verão em plena primavera, é a principal razão da discórdia. Elas dizem que o ambiente é “um freezer”. Eles, que é “uma sauna”.
No córner direito estão as mulheres. que agora encaram uma nova dificuldade do mundo moderno: conciliar as roupas propícias do clima tropical brasileiro com os verdadeiros frigoríficos em que são transformados os escritórios nesta época do ano. É frio no verão!
No córner esquerdo estão os homens que, num mercado de trabalho ainda relativamente machista, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ocupam a maioria dos cargos de chefia. E adoram um ar-condicionado!
Esta disputa tem muitos ‘rounds’. Para as mulheres, a luta começa já no domingo, quando ficam pensando na roupa que vestirão no dia seguinte: saia e uma blusa de alça para quando estiver na rua; meia-calça e casaco para quando chegar ao escritório. Constrangedor é vencer as poucas quadras entre o estacionamento e o local de trabalho com o blaser pendurado no braço. Verão nas ruas. Inverno no escritório.
Para os homens, o calor das primeiras horas da manhã na rua será recompensado pelo ar geladinho logo que entrarem no elevador da empresa, onde chegam já com o paletó pendurado na ponta do indicador. Esbaforidos, chegam dando as ordens para que o ar seja ligado.
Pronto. Está armado o conflito. “É uma guerra diária em cada sala da repartição. Eu sinto que estou fazendo vestibular para pingüim. Meus pés congelam e meu cabelo vira um picolé”, relata, bem-humorada, a gerente comercial Adriana Menine Brites, 32 anos. Ela trabalha numa sala junto com outras cinco mulheres, sempre vistas de casaco e até gorro, “inclusive no verão”. “Parece um bando de ET”, brinca.
Em outra sala no mesmo corredor e em situação idêntica, está a vendedora Andréia Mucillo, 30 anos. “Já sou friorenta e durmo de edredom mesmo no verão. Aqui, morro de frio. Fecho a grelha do ar. Meu chefe abre. Vivo reclamando. Desta vez, peguei um resfriado de dez dias e coloco a culpa no ar-condicionado”, conta. “No fim, a gente leva na esportiva”.
Como toda guerra, tem suas estratégias. A saída do chefe para o almoço é a chance ideal para quem sofre com as baixas temperaturas colocar em prática alguns truques. O mais usual é retirar a grelha do aparelho de ar-condicionado e tapar a saída com jornal. Dura até a próxima visita do técnico de manutenção. Tem outro: abrir uma janela e esconder a abertura com a persiana.
“Ah, eu adoro um ar-condicionado. Tanto no trabalho, como no carro e até em casa”, admite Luiz Henrique Pierre, assessor administrativo, 39 anos. “Democraticamente, eu peço para que o ar-condicionado seja ligado na empresa, sempre que chego. Gosto do calor, do verão, mas para tudo tem lugar. Verão combina com praia. Fora disso, me sinto bem com o ar gelado”, diz, aos risos.
Apesar de não ser regra, também tem homem que sente frio. O próprio Pierre teve um auxiliar assim. “Certo dia ele me pediu para desligar. Disse que estava com a mão congelando e que não conseguia nem escrever”, diverte-se. “O corredor dele é um freezer”, entrega a colega Adriana.
Argumento não faltam aos adeptos do aparelho da discórdia. “Minha sala tem muitos computadores. Se a temperatura sobe, eles travam e prejudicam todo o trabalho”, defende-se o analista de sistemas Wanderlei Paiva Monteiro.
“Normalmente, é uma questão de hierarquia. Aqui, o controle do ar é travado com cadeado. O que o chefe manda é o que vigora”, descontrai Monteiro, sem esconder que é um adepto da decisão freqüente do chefe: ar bem geladinho.
O sistema de ar-condicionado que congela as moças e refresca os rapazes é central e atende a todo o andar, o 28° da holding da Microcamp. O detalhe que pode servir de consolo para funcionários de outros setores é que empresas de informática ficam com o sistema de ar ligado até no inverno. “Às vezes estamos sob 16°C”, lamuria-se Adriana.
A temperatura não é o único problema. “Tem o barulho e a fuligem emitidos pelo aparelho. Nunca posso colocar uma roupa clara, que ao final do dia estará manchada”, conta, com incontida indignação, a advogada Joseane Zanardi, 25 anos. “Ele realmente faz mais barulho do que refresca. Mas num ambiente com várias pessoas, sempre há interesses e vontades diferentes”, constata Patrícia Almeida Narcizo, 28 anos, também advogada.
Aí, é hora da negociação. “A gente chega da rua e pede para ligar. Elas entendem nosso drama, são compreensivas. Elas podem usar saia, roupas mais leves e decotadas. Pra gente é mais difícil, temos que estar de terno e gravata o dia todo”, alega Kendy Waki, 21 anos, do mesmo escritório.
Vantagem leva a pesquisadora microbiologista Marta Cristina Teixeira Duarte, 44 anos. Ela é a chefe no departamento que divide com outros dois homens. Marta atende pela análise microbiológica do ar de aparelhos em toda a Região Metropolitana de Campinas. E vê reproduzido no seu ambiente de trabalho o cenário que encontra nas empresas para as quais presta serviço. “Vivo essa disputa com os colegas de sala, pois sou muito friorenta. Só que esta briga precisa ter um balanço entre o certo e o errado no uso do aparelho”, alerta.
Uma portaria da Anvisa estabelece que, no verão, o ambiente climatizado por ar-condicionado deve permanecer com a temperatura entre 23°C e 26°C, e a umidade relativa do ar, entre 40% e 65%. No inverno, a variação deve ser de 20°C a 22°C e a umidade entre 35% e 65%.
“A única solução é separar os homens das mulheres, pois nunca há acordo nos lugares em que visitamos. Aqui, a gente estabeleceu uma temperatura conciliatória, de 25°C”, diz o biólogo Alexandre Nunes Tonezi, 40 anos, do Centro de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA) da Universidade Estadoual de Campinas (Unicamp).
“Nas empresas, sou sempre assediado pelos funcionários. Uns querem baixar a temperatura do sistema central, outros querem aumentar. Trabalho com uma combinação entre temperatura, umidade relativa e velocidade do ar para buscar o equilíbrio”, relata Denílson Boschiero do Espírito Santo, engenheiro mecânico que trabalha com manutenção de arcondicionado em Campinas há mais de dez anos.
Uma explicação para a sensibilidade divergente às t e m p e r a t u r a s pode estar na diferença da distribuição dos hormônios entre homens e mulheres, segundo o médico Eduardo Nunes Batista. “Depois dos 45 ou 50 anos, isso muda na mulher e ela passa a sentir mais calor”, avisa. Pés e mãos muito gelados podem significar problemas de circulação. Logo, nada de botar a culpa só no ar da empresa.
Como toda guerra dos sexos tem que ter um final feliz, a provocada pelo ar-condicionado tem uma trégua sempre às sextas-feiras, quando boa parte se rende a driblar o calor nas choperias da cidade. De preferência onde não exista ar-condicionado.