Ao voltar faminto de uma expedição ao campo, o caçador Esaú encontrou o irmão gêmeo Jacó fazendo uma sopa de lentilhas. O aroma inebriante que recendia do fogo aguçou seu apetite. O esperto Jacó tivera a premonição de que o irmão não ia resistir à tentação deliciosa. Deve ter escolhido os grãos mais bonitos e usado os melhores temperos, antes de submetê-los ao longo cozimento.
“Dê-me dessa comida”, implorou Esaú. “Vendeme o teu direito de primogênito e eu te darei um prato dela”, propôs Jacó. Esaú aceitou o negócio: “Estou morrendo de fome e não faço questão desse direito.” Jacó insistiu: “Jure.” Resposta de Esaú: “Juro.”
Segundo o Gênesis, primeiro livro da Bíblia, Esaú abriu mão do direito de primogênito por aquele singelo prato de lentilhas. A trama prosseguiu.
Quando Jacó, passando- se pelo irmão, enganou o pai velho e quase cego, obtendo a bênção especial que confirmou sua conquista, Esaú se enfureceu.
Chegou a pensar em matar Jacó, que fugiu para o Norte distante. Trabalhou anos com um tio e só então voltou. Para seu alívio, Esaú o recebeu fraternalmente. Mas, selada a reconciliação, cada um seguiu o próprio caminho.
Abdicando o direito de primogênito, Esaú abriu mão do privilégio de suceder o pai como chefe da família e exercer autoridade patriarcal. Mas acabou tendo sorte, pois mais tarde se tornou um homem rico. A superstição afirma que isso aconteceu porque comeu o prato de lentilhas. Tem ascendência bíblica, portanto, o alimento mais freqüente nas ceias do réveillon. Em vários países do mundo, incluindo o Brasil, acredita- se que saborear lentilha no final do ano propicia dinheiro por 12 meses. As pessoas que dela se abstêm cometem erro imperdoável.
A associação da lentilha com o dinheiro viria de seus grãos miúdos e achatados, que lembram uma pequena moeda. Para milhões de pessoas, consumi-los no réveillon equivale a fazer promissora aplicação financeira.
Mesmo para os indiferentes à superstição, o final do ano é boa ocasião para comer um alimento precioso. Planta anual, da família das leguminosas, da qual consumimos apenas as sementes, que apresentam cor marrom, verde ou vermelha, a lentilha se presta a inúmeras receitas. Seu sabor talvez evoque o do feijão. Harmoniza-se com ingredientes como a carne de porco, o toucinho, a lingüiça e o “cotechino”, embutido de origem emiliana. Vai bem em sopas e cremes, purês e saladas (França), antepastos
e molhos de massas (Itália). Misturada com arroz e cebola frita, transforma-se em clássico da cozinha árabe.
Poderosamente nutritiva, a lentilha fornece 336 calorias a cada 100 gramas de grãos. Além disso, é rica em proteínas, fósforo, ferro e vitamina B.
Possui elevada quantidade de fibras. Nutricionistas empenhados em reorganizar dietas desequilibradas aplaudem essa virtude. Em 100 gramas de grãos há quase um terço de fibras, 50% a mais do que necessitamos por dia. A Universidade de Saskatchewan, no Canadá, realizou uma pesquisa com voluntários de 19 a 38 anos e concluiu que o consumo regular de lentilha diminui o risco de câncer no intestino e ajuda a reduzir a taxa de colesterol do sangue.
Embora sem conhecimento científico, os povos antigos intuíam essas propriedades. Na Renascença, empregava-se a lentilha na recuperação dos doentes. O mesmo remédio era ministrado para controlar as pessoas de temperamento insuportável. Com a parte herbácea, faziam poções usadas como coagulante nas hemorragias rebeldes. O escritor latino Columella, que viveu no século 1º e deixou textos sobre agricultura, garantiu que os romanos curavam a tosse dos cavalos com uma pasta à base de farinha de lentilha.
Foi uma das primeiras plantas alimentícias cultivadas pelo homem. Sua descoberta ocorreu provavelmente na Ásia, talvez na Mesopotâmia, há 8 mil anos. Portanto, entrou para nosso cardápio em tempos pré-históricos. Os egípcios e persas a apreciavam, mas ela só passou a ter maior importância quando chegou à Grécia e ao Egito. Atualmente, a Turquia e a Índia são os grandes produtores mundiais de lentilha. No Brasil, é cultivada principalmente nos Estados do Sul, porque sua cultura prefere os solos férteis das regiões frias. Ao mesmo tempo, suporta bem os períodos de seca.
Essa resistência acontece porque suas raízes são profundas. Ultimamente, surgiu no Brasil uma variedade capaz de ser plantada nos solos do Planalto Central Brasileiro. Veio da Argentina, trazida pelo Centro Nacional de Pesquisas de Hortaliças (CNPH/Embrapa), com a colaboração da Universidade Federal de Santa Maria (RS). O ciclo vegetativo da lentilha é de aproximadamente 140 dias, embora existam variedades com 70 a 115 dias. Seu nome botânico é “Lens esculenta”, mas também a chamam de “Lens culinaris”, pela importância gastronômica. Como é vendida seca, necessita ficar de molho durante algum tempo. O fato de aumentar de volume durante o cozimento é outro sinal de bom augúrio. Esaú talvez nem sonhasse com isso. Mas, segundo a superstição, foi o primeiro beneficiário de sua magia.