A o folhear em um guia para estudantes as páginas reservadas aos vestibulares mais importantes do País em 1994, Maria Cristina Youn Lui topou com fotografias dos primeiros colocados em exames dos anos anteriores. Na hora pensou: “Só podem ser ETs”. Meses depois, ela própria estaria na galeria daqueles que havia considerado alienígenas. Entrou na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em 1º lugar, para cursar Engenharia de Alimentos. Ainda sob o impacto do resultado conquistado, se viu obrigada a rever conceitos. “Descobri que os primeiros são gente normal, iguais a todo o mundo, com a diferença que lutaram com mais garra por um objetivo”, diz Maria Cristina hoje, aos 27 anos, trabalhando como engenheira de desenvolvimento do grupo Sadia.
Como ela, outros campeões do vestibular se consideram pessoas comuns, que se diferenciam do resto apenas porque conseguiram realizar o sonho de muitos: passar no vestibular da Unicamp, uma das melhores universidades do País, na melhor colocação, fazer por merecer o respeito de colegas e professores, ter handicap extra na corrida por um bom emprego e, por fim, criar condições para ter qualidade de vida melhor no futuro.
Como qualquer jovem de sua idade, hoje a engenheira Maria Cristina Lui, que está noiva, sonha em se casar e formar família. Mas na fase de provas do vestibular de 1994, sua maior preocupação era compensar o esforço feito pela mãe viúva, que trabalhou duro para garantir a educação de oito filhos. Na contramão dos costumes de seu povo, a mãe, Yue Pó, explantadora de arroz na China, conseguiu ver diplomados seis deles. “Sempre ajudei minha mãe no comércio, já vendi muito pastel”, conta.
Atualmente, Maria Cristina contabiliza seis anos na Sadia e está prestes a concluir um mestrado na Unicamp. Além disso, faz curso de idiomas e planeja iniciar um MBA. Tudo isso morando em Campinas e trabalhando em São Paulo. O salário como engenheira está dentro da média do mercado, mas ainda não permitiu a ela adquirir a casa própria. “No momento, tenho outras prioridades, como ajudar minha mãe.”
Aos 34 anos, o engenheiro de computação Fábio Minoru Tanada, número 1 no vestibular em 1988, pode se dar ao luxo de desfrutar do conforto de uma bela casa no condomínio Alphaville. Mesmo assim, confidencia que precisou contar com a retaguarda do pai até conseguir assentar o último tijolo. “Não conseguiria terminar a construção sem ajuda financeira. Principalmente se tivesse de contar apenas com meu dinheiro”, diz.
Casado e pai de duas meninas, Tanada faz gerenciamento de sistemas de computação na IBM, onde deu início à sua carreira profissional, mas no passado experimentou duas tentativas frustradas de montar o próprio negócio. A primeira, na área de desenvolvimento de software. Depois, na prestação de serviços para a informática, aproveitando a explosão da Internet. Não deram certo.
O que teria impedido um sujeito tido como gênio por colegas e professores de ter sucesso como empreendedor? “No Brasil, não é fácil abrir e tocar uma empresa”, resp o n d e . “Ainda por cima, na época, acabei enfrentando as dificuldades de um momento de recessão”. Mas Tanada tirou lições valiosas do fracasso. “Uma empresa não pode esquecer de avaliar muito bem os desejos e caprichos do mercado. É preciso investir na área comercial e, principalmente, no marketing. Concentrei investimentos demais apenas na qualidade do produto.”
Retornar ao posto de assalariado foi um caminho lógico. “Pessoas com o meu perfil profissional se dão muito melhor como empregados. Sempre fui um sujeito estudioso, porém tímido. Os colegas mais arrojados, que levavam uma vida social agitada, conquistaram sucesso em empresas próprias.”
O engenheiro elétrico Dênio Alves Lindo, 35 anos, primeiro colocado no vestibular da Unicamp de 1987, jamais dispensa o churrasco com os amigos e o futebol. Se enquadra no perfil extrovertido descrito por Tanada e percorreu trajetória inversa. Falante e sociável, em 2000 deixou uma carreira bem estabelecida ao longo de sete anos na IBM para abrir seu negócio, a Desktop Internet Services, que atua no segmento de serviços de Internet – hospedagem e criação de sites, acesso banda larga, conectividade e desenvolvimento de sistemas.
Satisfeito com os resultados, já deu início ao projeto de construção da nova sede, em Sumaré. A motivação para encarar o desafio de frente foi a constatação de que, no Brasil, sua profissão oferece certas desvantagens. “No início da carreira o salário é bom. Com o passar do tempo, quem não migra para a área comercial fica estagnado. Ou, depois de uma certa idade, corre o risco de ser descartado pela empresa, que não valoriza a experiência.”
Justamente para escapar desse dogma, Fábio Tanada planeja atuar também em outras frentes da empresa. “Não quero e nem pretendo estacionar”, garante.
Espírito semelhante move outro engenheiro, alçado para o topo da lista do vestibular em 1993. Algum tempo depois de concluir seu curso de Engenharia da Computação na Unicamp, André Guimarães Tardin, hoje com 30 anos, se mudou para Nova York. Lá, passou dois anos se aprimorando em animação e ilustração. Hoje, põe em prática o que aprendeu atuando como designer interativo de uma empresa de treinamento multinacional. Desenhista e pintor, cria jogos e animações para serem utilizados na área de capacitação de pessoal de grandes empresas. Feliz com o caminho trilhado,relembra que emplacar a carreira em seu retorno dos EUA foi mais complicado do que passar na prova. “Foram mais de seis meses até que trabalhos significativos surgissem”, conta. Tardin trabalha até dez horas por dia na empresa e várias outras em casa, como designer freelance. Prestes a se casar, com metas profissionais bem definidas e estrategicamente guardadas sob sete chaves, se define como um sujeito disciplinado, esforçado e apaixonado por desafios. Dos tempos em que viu seu nome estampado no alto da lista dos vitoriosos, ele guarda uma divertida lembrança.
“Ser o primeiro só me ajudou a levar mais trotes.”
Bonita e simpática, Thais Gomes de Melo, de 25 anos, primeira no exame que lhe abriu as portas da Faculdade de Medicina da Unicamp, em 1997, guarda o mesmo tipo de memória das brincadeiras estudantis. Não se esquece da surpresa que provocou nos colegas pelo fato de não ser exatamente o que se chama de nerd – o estereótipo do geniozinho sem graça e sem tarimba social. Thais logo se enturmou.
No final de janeiro ela concluiu o segundo ano de residência lá mesmo, na Unicamp. E desde 1º de fevereiro faz especialização em endocrinologia. No exame de seleção feito em dezembro, na Unicamp, a repetição do velho desempenho: chegou em primeiro na disputa que envolvia 55 candidatos para apenas duas vagas. Vai ficar um ano fazendo residência na especialidade que escolheu antes de correr atrás de outros sonhos.
Também dono de boa aparência e ótimo traquejo social, o médico residente Rogério de Barros Ferreira Leão, de 26 anos, número 1 da Unicamp em 1996, causou espanto semelhante em seus desavisados colegas. “Provavelmente esperavam por alguém usando óculos fundo de garrafa”, diverte-se.
Rogério terminou no final de janeiro a residência em ginecologia e obstetrícia e já está em São Paulo. Vai estagiar no Hospital Pérola Byington, da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, que presta serviços gratuitos para a mulher e a criança e recebe acadêmicos para formação profissional. Ele deve ficar por lá nos próximos doze meses, especializando- se em cirurgias ginecológicas e n d o s c ó p i c a s , como laparoscopia (feita com pequenas incisões no abdome) e histeroscopia (inspeção endoscópica do interior do útero para diagnóstico e procedimentos cirúrgicos). O estágio não é remunerado. Por isto, para se manter vai continuar dando plantões de fim-de-semana nos hospitais de Sumaré e Hortolândia.
Em fevereiro um novo geniozinho se juntou ao time de fora-de-séries da Unicamp. A universidade apontou que Thiago Dornela Apolinário da Silva, de Ribeirão Preto, que disputou uma vaga em Medicina, foi o melhor no vestibular de 2005.
Perfil pessoal ganha peso extra
Mais do que as notas recebidas no exame de eliminação, é o estilo “gente que faz” que realmente conta no mercado de trabalho. A explicação é simples: a imagem de nerd não combina com os padrões de seleção impostos pelo mercado de trabalho atual – e Bill Gates é a exceção que confirma a regra.
“Como atualmente os currículos são muito parecidos, as empresas conferem peso extra ao perfil pessoal e psicológico do profissional”, esclarece Veridiana Germano Zagatto, 32 anos, consultora da Manager, empresa especializada na busca de talentos. Segundo ela, na era da informação ninguém duvida que os alunos que se destacam detêm um nível de conhecimento acima da média.
Nem por isso essa bagagem é suficiente para passar a perna na concorrência. “É preciso descobrir se ele é capaz de pôr em prática aquilo que aprendeu, gerar soluções e resultados”, acrescenta. Por isso mesmo, a seleção final se dá pela análise do comportamento e do conjunto de atitudes do candidato à vaga. Ou seja, o profissional precisa pôr na mesa habilidade técnica e estratégias políticas capazes de render frutos. “Vence quem tiver disposição para compartilhar valores, liderar, planejar, organizar e controlar”, sentencia.
Investir no desenvolvimento de qualidades empreendedoras é uma dica. Possuir aptidão suficiente para trabalhar a imagem e investir em marketing pessoal pode ajudar a vender o peixe a um futuro patrão. Também faz diferença para quem quer ser dono do próprio negócio.
Para a psicanalista e doutora em Filosofia na Educação Maria Escolástica Álvares, 58 anos, “o que acontece com cada um de nós é sempre resultado de nossa história pessoal e nossas escolhas”, diz. Ela acredita que “o problema é muito mais a expectativa que se coloca nos ombros dos jovens e faz com que eles busquem o sucesso na forma de um bom emprego logo ao sair da universidade”. Escolástica destaca que essa expectativa “chega a ser torturante, vira uma patologia; o “funil” do vestibular hoje é um pesadelo”.
Ela conta que recentemente ouviu uma história preocupante de uma estudante que cursava o quarto ano de faculdade. “Ela disse para o professor que sempre ouviu que o tempo de faculdade é o mais alegre e feliz da vida, mas que não sentia nada disso, que vivia em tensão constante e via em cada colega um inimigo que competiria com ela por um emprego no futuro”. Talvez, lembra Escolástica, seja hora de parar e pensar um pouco no que significa sucesso. “Será que é ter um bom emprego, muito dinheiro, um carro do ano, uma bela casa? Se tudo isso bastasse, porque tantas pessoas estão infelizes, doentes e estressadas mesmo tendo tudo isso?”
Esta é uma das razões que a levaram a trabalhar com a o r i e n t a ç ã o transpessoal, linha da psicologia que entre outros conceitos define que o ser humano anseia não apenas pela satisfação de necessidades materiais e biológicas, mas também pelos valores universais de paz, beleza, verdade, amor e espiritualidade. Escolástica, que coordena os cursos de formação em Abordagem Transpessoal do Instituto Humanitatis, enfatiza que é preciso pensar numa educação que vise a sustentabilidade do ser humano. “E quando digo isso, estou pensando numa postura ética que privilegia a vida, a solidariedade, o respeito”.
Um jovem recém-formado que tenha uma visão transpessoal da vida e do mundo, de acordo com ela, “dificilmente se deixaria enredar pela sedução do “sucesso” a qualquer preço, sacrificando por isso sua vida, sua saúde, sua paz de espírito”. Escolástica aposta que “a cultura da superficialidade está com os dias contados. Vencerão os que forem capazes de assimiliar essa tendência de nosso tempo”, aposta. (MCM)