Ano 1- Nº 15 - Fevereiro - Campinas, Quinta-feira, 10 de março de 2005

Atalhos bloqueados
Mauro Ribeiro

No caminho da vida, somente um atalho não é permitido: menosprezar os estudos. Estudar dura e severamente, num desafio que não se esgota ao concluir faculdade ou curso técnico equivalente. Aliás, ingressar na universidade constitui etapa menor na formação da cidadania, cuja plenitude, embora situada num plano idealizado, deveria representar aspiração central dos brasileiros.

No tema de capa desta edição, os exemplos de dedicação, perseverança, bom fanatismo e altruísmo desfilam como se fora numa passarela do que existe de melhor na espécie humana. Há casos comoventes.

Mas a cidadania se exerce também pelo protesto consciente, justo e digno, recheado embora de espanto diante do menosprezo de empresas e instituições públicas e privadas na relação com a sociedade, os consumidores.

É o caso das telefônicas privatizadas. Compra-se um aparelho que, alegam, atende no Brasil inteiro. Mentira. A empresa Vivo é a própria vivaldina. Em São Paulo, funciona bem. Vai-se para o Nordeste brasileiro, e o sistema se transforma em analógico, deixando o consumidor no limite de um ataque de nervos: faz-se uma ligação de 5 minutos, acaba a bateria. Recebe-se uma chamada de igual tempo, o resultado se repete. Fica-se feito palhaço de circo (com todo respeito aos palhaços profissionais). Na propaganda que difundem (aliás, enganosa), não e x i s t e menção a respeito dessa diferença substancial.

Alhos com bugalhos? Não. As coisas se misturam, para formar um projeto de modelo de cidadão. O aluno estudioso aprende, desde cedo, a reclamar e a protestar. Tem massa cefálica para tal. Lê e lê muito, precondição para formatar um cérebro criador e criativo, longe do padrão ditado, hoje em dia, pela televisão.

Ao contrário do alegado preceito bíblico, os últimos jamais serão os primeiros, nesse mundo de competição feroz, canibal. Na vida real, os últimos serão sempre os últimos. Os primeiros, por sua parte, somente justificarão tal condição se se mostrarem dignos da posição que conquistaram, mediante sucessos pessoais e sociais. Deixe- me realçar: sociais.

Muitos de nós estamos pagando o preço da alienação cultural dos nossos responsáveis. Pais, mães, tios, avós, irmãos mais velhos – juntando todos, quem já viu algum deles ir aos templos de consumo e comprar um livro para si e/ou para as crianças? Existem exceções, quando deveriam ser a norma. E que não se reclame dos governos.

Se as orações são o roteiro possível para o céu, os livros representam a estrada segura para a longa e árdua jornada na planície da vida. Não existem atalhos nessa caminhada.



Publicado em 18 de fevereiro de 2005







anterior
A saga dos primeiros
próxima
Cuidando dos pobres, melhoramos a vida de todos
capa

edições anteriores

imprimir

comentar

enviar


       Copyright © 2004 MMais.com.br. Todos os direitos reservados.                                                     Desenvolvimento: CicloDesign.com.br