Ano 1- Nº 15 - Fevereiro - Campinas, Quinta-feira, 10 de março de 2005

Cuidando dos pobres, melhoramos a vida de todos
EDUARDO MATTOS


“O Orçamento Participativo vai ser mantido”
CHRISTIANO MAZZOLA
Era mais uma história de migrantes, como tantas de gente que cruza o País em busca de uma vida melhor no Sudeste. Naquele dia de 1966, Manoel Belmiro dos Santos arrastava pelos trens da extinta Noroeste do Brasil seus dois filhos. Saíram de Corumbá, hoje Mato Grosso do Sul. Ele queria chegar até Bauru, já em São Paulo, e dali, também de trem, até onde o dinheiro permitisse. O dinheiro deu para chegar a Campinas.

Aquele pantaneiro sabia, intuitivamente, que migrar era dar esperança aos filhos, já então órfãos da mãe, Dirce. Naquela época, os sobreviventes do Oeste brasileiro tinham apenas três caminhos: se envolver com as atividades ilegais da fronteira, entrar para as Forças Armadas ou ser padre. Hoje, 39 anos depois, o mais novo daqueles meninos, Hélio de Oliveira Santos, ocupa o cobiçado gabinete do quarto andar do Palácio dos Jequitibás, na condição de primeiro afrodescendente a ser eleito prefeito de Campinas.

Estudou Medicina na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), tornou-se cirurgião-pediatra e envolveu-se com causas de responsabilidade social quando a expressão nem era usada: criou, em 1985, o Centro Regional de Atenção aos Maus Tratos na Infância (Crami), referência nacional na defesa e proteção de crianças e adolescentes contra a violência doméstica. Partiu para a política partidária. Elegeu-se duas vezes deputado federal e tentou outras duas antes de realizar o sonho de ser prefeito, aos 54 anos. Agora, promete atender a maioria, aqueles que o elegeram: os pobres.

O ritmo das primeiras semanas de mandato o levaram a renunciar a alguns prazeres. Já não passeia em sua moto Harley Davidson como antes, nem consegue se entregar ao maior dos prazeres: a leitura.

Com a agenda lotada, a Internet passou a ter forte apelo: por meio do laptop de sua mesa de trabalho ,acompanha os resultados dos jogos de seus times preferidos, Flamengo e Corinthians, e o que acontece no mundo, especialmente na Flórida (EUA), onde estuda Maria Fernanda, a mais nova de suas filhas – as outras duas, Manuela e Maria Thereza, vivem com ele e a esposa, a médica Rosely Nassim Jorge Santos, também secretária-chefe de seu gabinete, que acompanhou parte da entrevista.

Nesta entrevista a M+, o prefeito mostra o seu entusiasmo pela tecnologia da informação. Não se separa do handheld que lhe permite, além de controlar a agenda, fazer ligações em freqüência celular e acesso sem fio à Internet, além de transmitir arquivos de som, áudio e vídeo. A paixão pela tecnologia da informação explica o fato de o prefeito querer democratizá-la em seu mandato: “Quero ver nos quatro cantos de Campinas oportunidades de acesso à informação”.

M+ Campanhas eleitorais permitem conhecer a fundo a vida real da cidade. Qual foi a constatação mais dramática daquele período?

Hélio – Percorrer a periferia e ver as grandes diferenças é dramático. Campinas é uma cidade pujante. Tem uma das melhores universidades do Brasil (a Unicamp). Nós temos um dos melhores parques tecnológicos da América Latina, centros como o CPqD (Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações). E qual o impacto disto tudo na vida das pessoas? O que é transferido desses setores, que utilizam infra-estrutura instalada da cidade? Isso frustra. Temos que devolver para a população mais pobre aquilo que foi construído com o esforço dela. Eu reconheço que temos de cuidar do rico, da classe média também, mas eu tenho minha preferência, que é a classe pobre, oprimida e excluída socialmente. Cuidando dela, vai melhorar também a vida das pessoas da classe média, dos ricos. Teremos mais sossego, paz, tranqüilidade e até mais riqueza para aqueles que estão ricos, além de melhores oportunidades para aqueles que querem ser ricos.

M+ Sua esposa parece ser uma figura marcante em sua vida. Como o sr. a conheceu? Qual a importância dela na sua vida e carreira?

Hélio – A Rosely, antes de ser minha esposa, está aqui na condição de uma profissional. É uma técnica da mais alta qualificação, que me acompanha no processo político há muitos anos e tem todas as qualidades importantes para poder assumir a cadeira de chefia de gabinete neste momento de implantação de nosso governo. O resto é uma questão pessoal, prefiro não falar.

M+ O sr. assumiu a administração pública com um patrimônio eleitoral de 52,63% dos votos em segundo turno. Votos especialmente da população pobre, que acreditou que o sr. governará para ela. Como espera se relacionar com os segmentos que apoiaram Carlos Sampaio e que são majoritariamente a elite da cidade?

Hélio – Será um relacionamento de responsabilidade, ético, legal e afetuoso. As eleições já acabaram. Penso que as pessoas precisam gostar de Campinas e trabalhar pela cidade. Tenho feito reuniões com todos os segmentos e quero a participação deles no planejamento e execução de programas.

M+ Passadas as primeiras semanas de governo, qual a sua percepção sobre o grau de dificuldade que enfrentará para administrar?

Hélio – A primeira dificuldade é vencer a dívida pública desta cidade, que é muito grande (R$ 1,4 bilhão) e que consome com juros mais de R$ 100 milhões ao ano, que daria para melhorar muito a infraestrutura urbana. Em seguida, vencer prioridades, uma delas vivida neste início de governo: por falta de combate às causas estruturais das enchentes, tivemos mais de 1.500 desabrigados e desalojados com as chuvas de janeiro. Neste primeiro ano terei que trabalhar de acordo com esse estado emergencial.

M+ Em quais setores a situação é melhor do que o sr. imaginava?

Hélio – Ela (a administração anterior) introduziu, por exemplo, o Orçamento Participativo, instrumento importantíssimo de participação do povo nos destinos da cidade. Deu transparência e objetividade na aplicação do Orçamento. Houve avanços no saneamento básico, que significa saúde pública, que venceu décadas de administrações passadas. Campinas tinha 3% de tratamento de esgoto e a administração passada, por meio da Sanasa, conseguiu dar um grande salto de qualidade (o percentual de esgoto tratado subiu de 5% para 37%).

M+ O sr. vai aproveitar projetos do PT?

Hélio – O Orçamento Participativo, o programa de saneamento básico, os projetos de combate à degradação do centro, o projeto de profissionalização dos jovens, o Ceprocamp (Centro de Educação Profissional de Campinas, que oferece cursos de qualificação profissional para adultos de baixa escolaridade), são todos programas que vamos manter.

M+ E o bilhete único no transporte coletivo?

Hélio – Esse é um exemplo dado por São Paulo. Uma das experiências bem sucedidas do bilhete único foi feita lá. E eu tenho um secretário de Transportes (o petista Gerson Luis Bittencourt) que tem experiência nisto.Vamos fazer o estudo técnico para poder implantar o bilhete único. Essa é uma das formas de o trabalhador ter no bolso, no final do mês, um dinheiro para gastar com a sua família.

M+ Durante a campanha o sr. disse que ofereceria creche em período integral. Campinas tem 14.000 crianças sem creche e outras tantas já atendidas em meio período. Como o sr. pretende realizar esta tarefa?

Hélio – Eu durmo, sonho, acordo vendo creche. Por uma razão muito simples. Um juiz aqui de Campinas, para cumprir o Estatuto da Criança e do Adolescente, impôs uma grande multa para o descumprimento da determinação de que toda criança esteja na creche e na pré-escola. (O juiz Richard Pae Kim, da Vara da Infância e da Juventude, determinou no final de 2004, que a prefeitura cumpra a Constituição e o Estatuto da Criança e ofereça, no prazo de um ano, vagas em creches e pré-escolas para todas as crianças até seis anos. Após este período, a prefeitura sofrerá multas). E ele tem razão. Não tenho muito fôlego para contratar gente e temos que respeitar a lei de responsabilidade fiscal. E não é só construir. É equipar e manter, com gente qualificada. Nós vamos pedir à iniciativa privada que apadrinhe as creches.

M+ O sr. suspendeu o pagamento da dívida feita no governo anterior, com fornecedores. São R$ 95 milhões. Como espera honrar estes compromissos?

Hélio – Nós vamos tratar esse assunto com responsabilidade. Não tenho dinheiro para pagar os R$ 95 milhões de restos a pagar. Não posso deixar uma escola desmoronar, não posso deixar de pagar o um terço de férias dos servidores municipais e nem deixar de ajudar os desabrigados pelas chuvas. Vamos buscar o desconto dessa dívida e o alongamento do perfil dela, dentro daquela máxima: reconheço que devo, mas agora não posso pagar. A máxima aqui é pagar somente o indispensável. Não contratar. Mas eu quero melhorar a arrecadação.

M+ Ainda este ano?

Hélio – Campinas perde muito em impostos. Há distorções importantes, por exemplo, nos valores venais do IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) que em muitos casos é superestimado. Vamos estudar a planta de valores e corrigir as distorções. Quando você tem um imposto justo, todo mundo paga e a base de arrecadação melhora muito.

M+ O sr. foi escolhido Presidente do Conselho de Desenvolvimento da Região Metropolitana de Campinas. Qual o principal passo a dar na evolução da integração da região?

Hélio – Nós vamos dar andamento a todas as questões que forem prioridade da região e utilizar a força política que ela representa e econômica que ela tem. A nossa região tem um poder econômico superior a alguns países da América Latina. É um país dentro do Brasil. Vamos utilizar estas forças para construir um processo de desenvolvimento sustentável.

M + Eu vejo que o sr. não se separa de um handheld. Gosta de tecnologia?

Hélio – O futuro do Brasil passa pela tecnologia. É indispensável dar oportunidade aos jovens carentes de ter igualdade de condições com os ricos na busca pela informação. Vamos ampliar o programa jovem.com (projeto de inclusão digital idealizado pelo prefeito e já implementado por empresas privadas em alguns bairros da periferia), quero ver nos quatro cantos de Campinas oportunidades de acesso à informação.

M+ O sr. já foi vítima de preconceito racial?

Hélio – Não. Esse é um problema que eu não enfrento. Porque sou um homem público que tem como seus objetivos a luta clara e renhida contra qualquer forma de preconceito e discriminação. Como homem público, tenho que cuidar de todos, negros, brancos, amarelos, índios, todos que tiverem necessidades sociais. As questões de ordem pessoal estão muito aquém das de ordem coletiva.

M+ Consta que certa vez, durante um jantar em um clube de Campinas, o sr. foi vítima de preconceito e reagiu de maneira indignada. O sr. se sente à vontade para falar deste episódio?

Hélio – Não... não. Eu costumo dizer que um homem público tem que olhar sempre para frente. Ele não tem o direito de olhar pelo retrovisor porque o povo tem pressa. Tem de olhar para frente e ajudar a construir esse mundo.



Publicado em 18 de fevereiro de 2005







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