Onde está o limite entre o que é normal e mórbido na relação com os animais? A psicóloga Adriana Oliveira Barillari, 34 anos, alerta que a fronteira está no momento em que há uma troca de lados, ou seja, o dono vira o animal. “Quando o bicho passa a ditar a conduta da pessoa na casa, há problemas”, define ela. “Se o dono do cão deixa de receber visitas porque ele late muito, por exemplo. O dono do animal está mudando para não mexer no falso equilíbrio do ambiente”, diz.
O perigo está essencialmente no fato de as pessoas abrirem mão de fazer coisas que gostam para não perturbarem o ambiente no qual o animal se insere. “Os animais estão sempre alegres, são leais, e algumas pessoas acabam transferindo para eles a troca de afeto”, diz. Para Adriana, o ritmo de vida da sociedade moderna, na qual prolifera a solidão, agressividade e violência, favorece este tipo de comportamento. “É fácil preencher o vazio que se sente com um ser vivo”.
Ela destaca, porém, que os animais são muito importantes para o desenvolvimento das crianças. “Ajuda a criar senso de responsabilidade e também na parte motora”.
Para o psicólogo Hélio José Guilhardi, 58 anos, a dedicação e o afeto que pessoas demonstram por animais não podem ser entendidos a partir de uma única explicação. “É muito comum encontrarmos crianças que viveram como ilhas solitárias, mesmo rodeadas de pessoas, que foram incapazes de expressar afeto”. Segundo ele, “os animais podem ter sido as únicas fontes incondicionais de amor, promovidos a seres capazes de dar e receber amor”, e assim este vínculo pode se repetir, sem que a solidão tenha sido superada na idade adulta.
Guilhardi lembra que outra possibilidade é quando o ambiente social e afetivo é hostil e a pessoa não consegue superar os obstáculos que a impedem de dar e receber amor. Neste caso, “ao abraçar um cachorro, o abraço não é humano, mas é real e tem componentes comuns ao ato entre pessoas”. Ele exemplifica: “Caminhar com um animal, sentar-se e ler ou ouvir uma música com um animal ao lado, ao alcance de um toque, substitui com vantagens, embora falte a autenticidade de uma boa relação humana, a dor da solidão”.
Para Guilhardi, há casos em que a pessoa pode ter dificuldades de amar ou de manifestar publicamente o afeto. Então, “a transposição do afeto para um animal dá a essa pessoa a sensação de que ela própria é humana, pois é capaz de amar. É uma distorção, mas pode tornar a incapacidade de sentir ou de expressar amor mais tolerável”.
Guilhardi destaca, porém, que amar os animais como manifestação “da capacidade mais abrangente de amar, é saudável, construtivo e muito gratificante”. E concorda com Adriana: “Cuidando dos animais as crianças aprendem muito sobre o amor, o respeito pelo outro, sobre doar parte de seu tempo e de suas atividades em prol das pessoas que a cercam”. E conclui: “Os animais são adoráveis, por que não amá-los?” (EM)