Tenho um pequeno e encantador livro do Ignácio de Loyola Brandão chamado Do Amor, Ensaio do Enigma. Lá pelo meio da quase poesia de sua prosa ele diz que há pessoas que amam e não sabem amar, outras sabem amar mas não amam, outras nem amam nem sabem amar. Poucas são as que sabendo amar, amam. Considera ainda pequena a possibilidade de alguém que saiba amar acabar amando justamente outro alguém que também saiba. Daí a utopia das relações perfeitas.
Seria melhor desistir? Quem sabe desistir do sonho, talvez, para assumir a realidade de um amor imperfeito mas possível. Assumir o sonho como tal e ir vivendo nossos amores com o que eles têm de bom e de concreto.
Paulo e Ana casaram-se se amando barbaridade. Eram muito lindos em seus chamegos, beijos e planos. Três anos anos depois, segundo filho no colo, ela se sentou em frente dele no café da manhã e disse que não o amava mais. Assim, tão de repente que ele teve uma vertigem.
– Como assim? Desde quando? Por que motivo?, engasgou ele, em pânico, pego de assalto no primeiro gole de café.
– Não sei, disse ela chorando. E pediu que deixasse a sua vida e a bela casa que haviam sonhado e construído juntos.
Acompanhei de perto os primeiros tempos de agonia de Paulo. E de meu posto ponderava as razões de um e de outro, tentando compreender o que teria se passado para entornar o caldo dessa história.
Tenho cá para mim que o que os afastou foram as expectativas não atendidas dela e a inocência dele sobre as coisas do amor.
Um antigo amor meu vivia repetindo um dito italiano. "Se forem flores, florirão". Queria justificar suas faltas, como se todo amor se bastasse. E assim o nosso pseudo-amor morreu de sede e frio em plena primavera, à sombra dessa teoria fácil.
Canta-se muito em prosa, verso e canções os cuidados que há de se ter com o amor, mas talvez bastasse empatia e atenção. A verdadeira e sincera atenção àquele que se diz amar. Porque se você ama e está atento, nenhuma erva daninha que porventura apareça em seu jardim vai sobreviver tempo suficiente para crescer até sufocar a sua flor.
Se você ama e está atento, vai perceber os sinais. Vai botar a sua flor ao sol, vai tratá-la bem. Não vai deixá-la a um canto e ainda fazer xixi em cima. Lembra aquela canção? “... a rosa do amor não vai despetalar pra quem cuida bem da rosa, pra quem sabe cultivar”.
Para que a esperança permaneça, digo que passado um ano da trágica conversa, Paulo e Ana decidiram tentar de novo. Ela arrependida, ele mais pronto. Ambos mais sábios do amor. Agora sim. Quem sabe?