Imagine uma rede pública tão essencial como a de abastecimento de água. Uma rede que supere o alcance de comunicação da Internet na forma como conhecemos hoje. Uma rede que traga à sua casa, à escola, ao almoxarifado do município, aos serviços de segurança pública ou de transportes, uma nova cultura de informação e administração.
Pense também numa população, especialmente a mais carente, que tenha acesso de baixo custo a uma ampla rede de informática, com aplicações em educação, saúde e com interação de conhecimentos e de valores humanos entre pessoas de todas as partes. Imagine uma Internet ampliada pela tecnologia de redes de fibras óticas, que promove inclusão social e difusão cultural interativa em grande escala. Assim é o projeto Infovia Municipal, desenvolvido na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
“A infovia aperfeiçoa a administração pública e potencializa a difusão em massa de conhecimento. É o fim de uma nova escravidão, que impede o acesso pleno aos serviços de telecomunicações”, sintetiza o professor Leonardo Mendes, 43 anos, coordenador do Laboratório de Redes de Comunicações da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação da Unicamp e que orienta projetos de infovias para prefeituras (atualmente, Morungaba, Campinas, Guarulhos, São José do Rio Preto e Santa Bárbara d’Oeste).
O projeto da Unicamp começou na vizinha estância climática de Morungaba, de 10 mil habitantes, a 42 quilômetros de Campinas, que firmou acordo com a Unicamp em 2002. “Em Campinas, por exemplo, desenvolvemos um projeto para a gestão do almoxarifado de medicamentos da Secretaria de Saúde; em São José do Rio Preto implantamos o projeto Conexão do Saber (desenvolvido e registrado por ele) que reúne 28 escolas em torno de um ambiente único de comunicações que permite à criança exercitar a linguagem de ciência e tecnologia já a partir dos seis anos”, entusiasma-se. “É o futuro digital, o futuro na ponta dos dedos”.
Mineiro de Mariana (MG), interessado em espíritos e reencarnação, Leonardo cresceu na cidade de Resende (RJ), onde viveu até sair para estudar no Rio de Janeiro. Fez doutorado na área de propagação eletromagnética na Universidade Syracuse, em Nova York, de onde voltou ao Brasil, em 1992, para ser professor na Unicamp.
Nesta entrevista, Leonardo Mendes afirma, entre outras coisas, que “já não se discute mais se a Internet vai desbancar os outros sistemas de comunicações, mas quando isto vai acontecer”.
M+ O que é a Infovia Municipal?
Leonardo Mendes – A Infovia Municipal pode ser definida como a infra-estrutura, os serviços e as aplicações que formam um ambiente de comunicações de alta velocidade, baseado na Internet e voltado para atender a todas as necessidades dos cidadãos de uma cidade moderna. Ela proporciona universalização e inclusão digital para toda a população, sem distinção de classe social. A infovia está para a informação assim como as ruas estão para os transeuntes e os veículos. Nesta concepção, a construção de redes metropolitanas – as infovias – faz parte da demanda de infra-estrutura do município, tanto quanto a construção de ruas ou das redes de água, esgoto e energia elétrica.
M+ Quais seus benefícios?
Leonardo – São inúmeros. Modernização da máquina pública, com economia para os municípios; implantação de novos instrumentos de difusão cultural; inclusão digital; democratização no acesso a serviços e informações de governo; projeção do ensino à distância, aperfeiçoando os instrumentos pedagógicos à disposição dos professores; democratização e universalização no acesso às comunicações; desenvolvimento dos negócios eletrônicos; desenvolvimento de uma indústria nacional de tecnologia da informação com capacidade para atender ao mercado interno e ainda levar a solução brasileira para o exterior. Tudo isto com a criação de inúmeros empregos especializados.
M+ É importante para a administração pública?
Leonardo – A infovia é um instrumento fundamental para a modernização da administração pública. O uso de sistemas informatizados de gestão garante segurança, transparência e, em alguns casos, uma enorme racionalização na administração dos recursos públicos, gerando economia financeira surpreendente. Assim, governo, empresas e cidadãos podem, no médio prazo (dois anos) e longo prazo (quatro ou mais anos), se beneficiar de uma solução que racionaliza o uso dos recursos de comunicações e reduz os custos financeiros e sociais do pagamento de altas taxas nos serviços de telecomunicações. A prefeitura pode se transformar em um provedor de serviços de comunicações, criando novas alternativas de captação de recursos para o município.
M+ O que ocorre, então, com nossas empresas de telecomunicações?
Leonardo – As empresas de telecomunicações não possuem fôlego financeiro para promover a universalização dos seus serviços, ainda mais com a inserção de serviços de comunicação multimídia de alto desempenho, com grandes avanços em tecnologia. A contribuição das operadoras neste setor tem sido de baixa qualidade técnica e alto custo.
M+ Qual a razão social para a implantação de infovias municipais?
Leonardo – A infovia permite a construção de um modelo viável de universalização, contribuindo de maneira fundamental até para melhorar a distribuição de renda. Isto é particularmente sentido na melhoria do atendimento no serviço público e na disponibilidade de oportunidades equânimes em comunicações para todos.
M+ Então, por que não é implantada largamente no Brasil, um país carente de educação e informação?
Leonardo – As operadoras de telefonia vivem hoje em estado de conflito entre a oferta de Internet rápida e o impacto que isto virá a ter em seu faturamento por causa da migração de usuários para a telefonia VoIP, (Voice over Internet Protocol, em inglês), para transmissão de voz via Internet, de custo muito mais baixo. Resta à sociedade o recurso de se organizar para buscar uma solução que atenda os seus anseios. Quando unimos todas as vantagens deste modelo, verificamos que qualquer cenário demonstra que a implantação da infovia promove o retorno financeiro do investimento em prazos muito curtos, de até dois anos. O retorno social é, muitas vezes, imediato.
M+ Isto vale, também, para os Estados Unidos, país referência em tecnologia da informação?
Leonardo – As infovias municipais estão sendo criadas internacionalmente desde 2001. Nos EUA, existem mais de 200 cidades que as utilizam. Lá, nos últimos oito meses, a implantação cresceu 70%. No final do ano passado, estima-se, já existiam 1,4 milhão de residências diretamente conectadas em infovias por fibra óptica. É um mercado que poderá gerar divisas para o Brasil, se for possível capacitar a indústria nacional com esta tecnologia.
M+ Por que o projeto teve início por Morungaba?
Leonardo – Houve o interesse do município, que tem uma população pequena, permitindo menor custo de implantação. Pudemos, então, pensar numa solução completa das diversas aplicações da infovia, desde acesso à Internet, serviços de vídeoconferência, atendimento público à saúde, comércio eletrônico, educação à distância, até segurança multimídia em rede privada e Internet TV. Porém, a seqüência do projeto aguarda decisão da nova administração muncipal.
M+ Qual é a reação das crianças?
Leonardo – É altamente positiva. O projeto Conexão do Saber, em São José do Rio Preto, aumentou para quase 100% o índice de presença dos alunos nas aulas. O ambiente é o de construção de uma nova cultura. No projeto, preparamos monitores para apoiar os professores dentro dos laboratórios de informática, qualificamos tecnologicamente quem ensina para que possam utilizar os benefícios oferecidos e implementamos laboratórios com tecnologia de software livre, denominada Linux.
M+ Há interação com outros países?
Leonardo – No Conexão do Saber, constrói-se um ambiente escolar virtual que é compartilhado com outros ambientes análogos construídos em escolas do mundo inteiro, onde alunos e professores podem interagir entre si. Em Rio Preto mesmo, já foram produzidos mais de 400 módulos educacionais, cobrindo a maior parte do conteúdo previsto para o ensino fundamental. Parte deste trabalho foi feita pelos próprios professores, que se apropriam da tecnologia e aprendem a usá-la em seu benefício e no dos alunos. O resultado deste trabalho é uma cultura que se torna patrimônio da comunidade.
M+ Qual será o futuro do sistema convencional de telefonia?
Leonardo – Ele vai perder espaço com a popularização das redes de transmissão de voz via Internet.
M+ A infovia é operada somente com software livre, o Linux?
Leonardo – Não. Ela pode operar sobre a maior parte das plataformas usadas atualmente, inclusive as da Microsoft. Em São José do Rio Preto, 100% da plataforma utilizada é software livre. Assim, o usuário tem o poder de punir os custos exagerados com o uso de soluções alternativas do mundo do software livre. Mas não se deve acreditar que o software livre resolve tudo. Aplicações sofisticadas costumam ter preço alto tanto nas plataformas Linux quanto na Windows, da Microsoft.
M+ O prefeito de Campinas, Hélio de Oliveira Santos, é um entusiasta de programas de inclusão digital. Já há interesse dele por uma infovia maior?
Leonardo – Secretários municipais de Campinas querem conhecer nossa proposta. A Infovia Municipal é um projeto criado na Unicamp, onde foi criado recentemente o Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento das Infovias Municipais, com participação também da Fundação para Inovações Tecnológicas e das empresas IgnisCom, Optolink e PadTec. Assim, pretendemos levar este projeto a se estabelecer como uma solução e alternativa viável de inclusão digital e rede de governo para os municípios.