ANO 2 - Nº 18 - MAIO - EDIÇÃO DIGITAL - Campinas, Segunda-feira, 13 de junho de 2005

Computador: o perigo que vem da telinha



João Guilherme, 12 anos, Ana Beatriz e Maria Carolina, gêmeas, 10 anos: horas no computador.
Foto: Christiano Mazzola
No mundo moderno, com os largos avanços da tecnologia, as telinhas de computador e os videogames conquistaram gosto redobrado das crianças e dos adolescentes. Papos pela Internet, jogos eletrônicos, blogs e flogs levam os pequenos a passar horas seguidas entretidos com as imagens luminosas e coloridas. A cena é comum. Eles ficam concentrados. Esquecem até de comer. Se chamados, nem escutam. Olhar fixo, bem próximo da tela, corpinhos curvados. Nem piscam. E é aí que mora o perigo! Um estudo recente realizado em Campinas faz o alerta: uso inadequado desses equipamentos provoca cefaléia, olho seco e até miopia em nossas crianças.

Além da utilização para o aprendizado formal, como pesquisas e trabalhos escolares, as novas tecnologias também figuram como principal diversão da geração que nasceu na era do computador. Que elas trouxeram novos hábitos para a humanidade nem se discute. O que se debate, agora, são os efeitos benéficos e maléficos – principalmente estes últimos – sobre a vida das pessoas. Especialistas de vários segmentos questionam até que ponto os novos hábitos são saudáveis. Agora chegou a vez da oftalmologia alertar que a rotina equivocada de exposição excessiva e fora das condições adequadas pode estar produzindo, a médio prazo, uma geração de míopes.

Leôncio Queiroz Neto, do Instituto Penido Burnier de Oftalmologia, é médico oftamologista há mais de 20 anos em Campinas e figura na terceira geração de especialistas dessa área em sua família. Por mais de dez anos, analisou um grupo de 320 pacientes com idades entre nove e 13 anos, que passava até 12 horas seguidas diante de computadores ou máquinas de jogos eletrônicos.

Descobriu que 30% das crianças e adolescentes apresentaram ardor nos olhos, olho seco, vista embaçada e dores de cabeça, sintomas de um problema batizado de Síndrome da Visão do Usuário de Computador, mais conhecida como CVS (Computer Vision Syndrome). Mas este não foi o resultado mais preocupante. O pior é que 21% dos pequenos apresentaram miopia, dificuldade para enxergar de longe.

De acordo com o Conselho Brasileiro de Oftalmologia, a expectativa média populacional é de que apenas 12% das crianças desenvolvam miopia após a puberdade. Na amostragem do estudioso, este índice foi superado em quase 100%. O dado surpreendeu o próprio especialista, que vê uma relação direta entre o mau uso do computador e o resultado de suas observações. “Nunca usamos tanto a visão de perto e tão precocemente como no mundo de hoje”, assegura.

Os sintomas aparecem por várias razões.

Concentradas nos jogos, por exemplo, as crianças piscam menos. Em geral, devem ser 20 piscadelas por minuto. Na hora do game, não passam de sete ou oito. Isso diminui a quantidade de lágrima e a proteção natural do olho. Conseqüentemente, aumenta o risco de irritação e infecções. Em casos extremos, a redução de lubrificação pode lesar a córnea, sobretudo em quem usa lente de contato ou fica em ambiente com ar-condicionado.

A luminosidade excessiva ou escassa é outra vilã. Assim como o mau posicionamento diante do monitor. Sem falar na questão ergonômica, uma vez que na maioria das vezes a meninada utiliza o equipamento dos pais sem qualquer adaptação para o tamanho delas. Para completar, tem o conjunto de 16,7 milhões de cores em variação de luminosidade que sobrecarrega a musculatura que controla a entrada de luz para a retina.

Mas espere. Antes de sair correndo para tirar as crianças da frente do computador é melhor observar os próprios hábitos, até por que eles serão importantes na hora de convencê-las de que devem reduzir a permanência no mundo virtual. Os adultos não estão livres da CVS. Ao contrário. Uma exposição diária superior a duas horas já é o suficiente para desencadeá-la. “E isso não tem nada a ver com a irradiação emitida pelo monitor, como já se propagou”, assegura Queiroz Neto.

A técnica em contabilidade Rosangela Cantagalo Teixeira, 40 anos, tem três filhos com problemas congênitos de visão: João Guilherme, 12 anos, Ana Beatriz e Maria Carolina, gêmeas, 10 anos. Em comum, eles passam horas no computador, em casa ou em lan houses (lojas de micros especiais para jogos eletrônicos em rede). Todos usam óculos. Segundo ela, depois que os filhos adotaram a rotina de passar até cinco horas por dia diante do computador, o problema de visão do garoto, que vinha regredindo, estacionou; o grau dos óculos das garotas aumentou.

A secretária Lucinéia Alves Sirineu, 36 anos, enfrenta a mesma dificuldade com o caçula Leonardo, de oito anos. “Ele sempre ficou até quatro horas no micro e no videogame. Começa jogando sentado. Em pouco tempo, está deitado e até de cabeça para baixo”, descreve. Ela identificou os primeiros sintomas de miopia no garoto há um ano, quando ele reclamou de dor de cabeça, vista embaçada e dificuldade para ver a lição colocada na lousa pela professora.

De lá para cá, a rotina dela e do marido, Daniel Sirineu, 35 anos, inclui fiscalizar a conduta do filho e até enviar bilhetinhos para contar com a ajuda da professora na missão de fazer o menino usar os óculos corretamente e diminuir a permanência no computador.

Enxergar perto exige mais esforço do nosso aparelho ocular do que enxergar longe. Comparado ao esforço físico, representa a diferença entre uma corrida e uma caminhada. Se você correr por 12 horas seguidas exigirá muito mais do seu organismo do que se apenas caminhar. “Este é o esforço que impomos aos olhos quando estamos diante do micro”, exemplifica o médico.

Já em 1907, o cientista francês Aristide Fournet alertava sobre as conseqüências de hábitos do mundo moderno para a visão. Lembrou que antigamente o homem usava seus olhos principalmente para ver de longe. A visão de perto era exigida por menos tempo. Com a revolução industrial, por exemplo, os hábitos mudaram. E o esforço para enxergar de perto por mais tempo, segundo ele, provocava a fadiga ocular - responsável por diversas doenças dos olhos.

Um estudo desenvolvido com 1,2 mil esquimós, no Alasca, em 1969, mostrou que uma população sem qualquer incidência de miopia teve cerca de 65% de seus descendentes com o problema. Pais e avós enxergavam bem. A geração seguinte era míope. Após a Segunda Guerra houve uma exigência para o desenvolvimento da educação formal dos esquimós. A população, que era analfabeta, tornou-se ávida por leitura. Mudou bruscamente o hábito de seus filhos, prejudicou-lhes a visão.

Outro experiente oftalmologista de Campinas, Avelino Sobrinho, 65 anos, relata sua recente experiência com três pacientes adultos. “Míopes, eles estavam estudando até 12 horas por dia para prestar concurso público. Na ocasião, tiveram aumento de até dois graus nos óculos em períodos inferiores a seis meses”, lembra.

O estudo de Queiroz Neto foi completo. Sua observação ocorreu com a visão de 1.237 pacientes de idades variadas, cuja rotina incluía a permanência diante do computador por até 14 horas diárias. O grupo infantil faz parte dessa amostragem total que identificou 75%, ou seja, 900 pacientes, com sintomas da CVS

A oftalmologista Denise Fornazari, 39 anos, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ressalta que ainda não há nada na literatura corroborando estes dados. “É tudo muito novo. Dez anos é um período relativamente curto para a ciência. Conclusões desse tipo demandam mais tempo para serem aceitas pela comunidade científica. Mas os dados já sinalizam para os cuidados que os pais podem tomar desde já. Por isso é indispensável procurar um profissional sempre que a criança apresentar algum sintoma como vermelhidão, vista cansada ou dor de cabeça, associado ou não ao mau uso dos games”, atesta.

Com ou sem comprovação científica, o conjunto de observações e relatos do estudo já serve de subsídio para outros profissionais da oftalmologia e para pais e educadores zelosos, preocupados com o futuro dessa geração que começa cada vez mais cedo a desvendar e se encantar com o mundo das novas tecnologias. Mundo que não tem mais volta. Resta, a todos, adaptar-se a ele da melhor forma possível.



Publicado em 10 de maio de 2005







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