ANO 2 - Nº 18 - MAIO - EDIÇÃO DIGITAL - Campinas, Segunda-feira, 13 de junho de 2005

Presentes
Beth Ferri

Comprei uma saladeira linda, transparente, e um incenso de cravo, dos bons.

Incrível como esses pequenos mimos nos dão uma sensação agradável de contentamento.

No caminho para casa fui ficando mais e mais feliz a olhar o bonito pacote. - É para presente, eu disse na loja; e a imaginar a mesa posta, amigos em volta, toalha branca de linho e o colorido das verduras expostas na vitrine da saladeira nova.

Antecipadamente senti a atmosfera agradável partilhada na sala, depois o aroma do café recém coado misturado ao do cravo, permeando as longas conversas noite adentro.

Me perguntei até que ponto o sentimento bom que me tomava tinha a ver com o fato de eu poder me dar essas coisas.

Afinal, um presente é sempre uma conquista. Mesmo quando você mesmo o dá a si. Pode ser um novo corte de cabelo, uma viagem a Paris ou a Águas de Lindoia, uma caixa de CDs de seu ídolo favorito, ou qualquer belo objeto, pequeno ou grande, para enfeitar sua casa ou alegrar seu filho.

Quanto mais demorada, difícil ou resistida, qualquer coisa assim traz em si um certo prazer, feito o gosto de uma vitória.

Ao pensar nisso me lembrei que tinha na carteira um bilhete de loteria por conferir. Ai ai, que me deu uma certa aflição! E se estivesse premiado? Será que eu perderia a chance de sentir essas felicidades picadas e tão cheias de possibilidade?

Coisa de pobre, diria minha amiga Jane.

No entanto percebi que se eu tivesse de repente muito dinheiro, muitas incontáveis alegrias por pequenas conquistas se perderiam com certeza. Que graça haveria em comprar um CD do Chico? Eu ia querer contratar um show só para mim. Os sonhos mudariam de lugar e de tamanho.

Aí teria alegrias das grandes, vão brincar alguns.

Pode ser.

Creio porém que é mais provável e mais razoável que encontremos prazer em coisas simples, cotidianas, possíveis. E a melhor parte é que isso é permitido a todos, independente do saldo bancário.

Na dúvida, não joguei fora o bilhete, que sou maluca mas nem tanto. Mas passam os dias e ainda não me decidi a conferir aqueles numerozinhos que poderiam me proporcionar quem sabe muita coisa grande gratuita e de outro lado me tirar o gosto pelas pequenas conquistas. Enquanto penso essas coisas vou curtindo as alegrias desse dia lindo de sol, feliz da vida com o fato de eu estar ali, a caminho de casa, a poucas horas de inaugurar a minha saladeira nova com tudo o que ela contém.



Publicado em 10 de maio de 2005







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