Com a ótica privilegiada de quem enxerga a Região Metropolitana de Campinas (RMC) do primeiro escalão do governo estadual, o secretário dos Transportes Metropolitanos do Estado, Jurandir Fernando Ribeiro Fernandes, prega um choque nas elites. Para ele, somente com as elites voltando a lutar pelos interesses da cidade Campinas atingirá outro patamar de desenvolvimento.
Aos 54 anos, engenheiro graduado pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), doutorado em Transportes Públicos na França, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Jurandir Fernandes conhece bem a cidade.
Foi secretário municipal de Transportes duas vezes (pelo PT e pelo PSDB) e era o preferido do então prefeito José Roberto Magalhães Teixeira para sucedê-lo, em 1996. Jurandir Fernandes enfatiza que não tem pretensões eleitorais para o futuro. “Não concorrerei a deputado, a vereador, a nada. Essa questão só se casa com meu modo de agir se houver uma situação natural”. Nesta entrevista exclusiva a MUITO+, ele fala dos problemas e das soluções para o transporte na RMC.
MUITO+ Qual é o caminho para se resolver os sérios problemas do transporte coletivo na Região Metropolitana de Campinas?
Jurandir Fernandes – O caminho mais importante para a RMC passa por uma organização da rede de transporte de cada município. Detectamos, na Secretaria, que cerca de 75% do transporte pendular de Campinas com a RMC está basicamente em Sumaré, Hortolândia, Nova Odessa e Monte Mor. Em seguida vem a forte presença de Valinhos e, depois, Paulínia e Jaguariúna. Procuramos saber qual o volume de veículos que servem a RMC. Depois fizemos uma radiografia de clandestinidade. Chegamos a aproximadamente 620 peruas clandestinas. A partir disso constatamos a necessidade de fazer uma pesquisa de destinoorigem da RMC. No mais tardar, em maio teremos esse resultado.
MUITO+ Como esses projetos envolverão os municípios?
Jurandir – Já estão envolvendo. Isso está sendo feito por meio da Câmara Temática – que dentro do Conselho da RMC discute com todos os secretários. Há casos como o Corredor Noroeste, envolvendo o eixo Santa Bárbara d’Oeste, Americana, Nova Odessa, Sumaré e Hortolândia, onde tratamos do tema caso a caso. Agora vamos envolver cada uma das Câmaras Municipais para que tanto Executivo quanto Legislativo apóiem o projeto
MUITO+ O chamado trem suburbano, que se mostra uma boa opção de transporte nas regiões metropolitanas do Brasil, não existe na RMC. É uma saída?
Jurandir – Na verdade, existe uma intenção de muitos anos nesse sentido. Desde o governo Magalhães Teixeira (prefeito de Campinas de 1983 a 1988 e de 1993 a 1996) e no governo Franco Montoro (governador de 1983 a 1988), fala-se no TIM, o Trem Inter- Metropolitano, que viria da região de Nova Odessa, passaria por Campinas e iria até Vinhedo. Esse trem não se mostrou viável naquela época. Quando você tem um modal abandonado por muitos anos, o uso do solo acaba se esquecendo daquela via. O caso do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) de Campinas é o mais típico. Ele ofertava 72 mil lugares por dia e não transportava mais do que cinco mil ou seis mil passageiros por dia. Um modo de transporte precisa ir onde as pessoas estão. Hoje o Estado, a União e o Município não têm capacidade de investimento. Temos de buscar parcerias com a iniciativa privada. Hoje um VLT custa US$ 2 milhões cada composição. Um ônibus articulado ou bi-articulado, híbrido, com um motor que gera energia elétrica e, portanto, polui muito menos, custa US$ 200 mil. Fazer um VLT para aproveitar uma capacidade viária ociosa e abandonada há 30 anos é, de novo, jogar dinheiro no lixo.
MUITO+ Nos últimos cinco anos, muitas cidades, inclusive da RMC, passaram a ter os “perueiros” disputando passageiros com os ônibus urbanos e até intermunicipais. Como enfrentar os problemas decorrentes? Alguns municípios regularizaram os perueiros, mas ainda há problemas. Jurandir – Houve uma negligência do Estado e dos municípios e houve incompetência dos empresários de ônibus que pensavam que a situação deles era estável ad infinitum porque tinham o passageiro cativo. O que dá para se fazer hoje? O perueiro pode ter seu papel, ter seu nicho como alimentador dos corredores de ônibus. Acho que os empresários vacilaram. Qual a tônica do consumidor hoje? O consumidor quer conforto e preço baixo, mas cada vez mais também quer múltiplas opções. O empresário que avança na modernidade aprendeu com os perueiros a necessidade de dar flexibilidade e conforto. O perueiro acabou tendo uma conseqüência positiva: a demonstração de que o setor precisava se modernizar.
MUITO+ Como está o projeto da Secretaria dos Transportes Metropolitanos, que trata da regulamentação dos perueiros? Jurandir – Dos 390 perueiros inscritos inicialmente, tínhamos selecionado 173. Aí houve muita discussão e resolvemos abrir mais 50 vagas. Agora em abril começa a etapa final, que é a de vistoria dos veículos. Até o final do primeiro semestre todos estarão enquadrados.
MUITO+ Há 30 anos fala-se na implantação de um trem rápido ligando Campinas a São Paulo e até ao Rio de Janeiro. Recentemente, o governo espanhol doou uma verba para estudos nesse sentido. O sr. acredita em um projeto desses?
Jurandir – É tão viável que uma situação muito menos vantajosa que a nossa está sendo cogitada. Os governadores do Distrito Federal e de Goiás estão estudando em conjunto um trem que ligará Brasília a Goiânia. Brasília tem dois milhões de habitantes, Goiânia tem um milhão e a distância entre as duas capitais é de 242km. Nós estamos falando em 18 milhões de habitantes em São Paulo, três milhões na região de Campinas,passando por Jundiaí, onde tem mais 500 mil habitantes, e são 98 km. A viabilidade, então, é mais do que evidente. Falou-se mais recentemente num trem magnético, que atinge até 528 km/h, avaliado em US$ 2,3 bilhões, com velocidade entre 350 e 400 km/h. Estamos propondo um trem que faça o trajeto a velocidade entre 140 e 160 km/h, que custaria um terço disso, cerca de US$ 700 milhões. O governo espanhol doou E$ 300 mil para fazermos um estudo econômico-financeiro da viabilidade desse trem ser encampado pela iniciativa privada. Mas acho difícil uma coisa parecida como esse trem porque o Brasil deixa as coisas se avacalharem. Veja bem: oito anos é o prazo para implantação de um trem desses. Como estará o sistema Anhangüera- Bandeirantes daqui a oito anos? Vamos, creio, estar sofrendo situações de congestionamento. Mas está todo mundo tranqüilo. Hoje são mais de 150 ônibus fretados que saem diariamente de Campinas para São Paulo. O usuário pega esse ônibus fretado e gasta R$ 8 por dia. Não há trem que subsista com esse valor. Só que vai chegar o momento em que os fretados enfrentarão grande dificuldade para entrar em São Paulo e a legislação de São Paulo, até por sobrevivência, vai começar a causar impedância para esse tipo de circulação. É importante lutar desde já por um sistema mais evoluído.
MUITO+ Num raio de 30 km do Centro de Campinas, paga-se pedágio para se deslocar até Indaiatuba, Itatiba, Americana, Jaguariúna e Santa Bárbara d’Oeste. Isso não onera demais os cidadãos da RMC para deslocamentos tão curtos?
Jurandir – É verdade. A situação é que o pedágio surgiu quando muitas estradas já existiam. O ideal é que uma estrada já seja concebida com pedágio. Aí o motorista faz o ingresso e saída na rodovia pagando apenas o trecho que percorre. Como as estradas já estavam abertas, tentouse colocar pedágios a espaços de 50 km. Aí acontece a injustiça. Quem anda 5 km paga pelos 50 km. Estamos trabalhando no Sistema Viário de Interesse Metropolitano (Sivim). O nosso erro é nossas cidades se comunicarem por rodovias. Rodovia é para viagem, não é para movimento pendular. Certo é Campinas-Valinhos, onde tem uma avenida, sem pedágio. É errado ir de Campinas a Valinhos pela Anhangüera. O prefeito pode proibir o tráfego por peso, por velocidade, desestimular aquele motorista de caminhão que tem de fazer a viagem em velocidade e estava desviando por dentro da cidade. Mas é preciso ressaltar o aspecto positivo da parceria público-privada dos pedágios. A Confederação Nacional dos Transportes (CNT) fez uma pesquisa: das 13 melhores rodovias do Brasil, 12 estão no Estado de São Paulo e a outra é a Dutra, que tem um trecho paulista.
MUITO+ O sr. implantou os radares eletrônicos em Campinas. Essa medida reduziu o número de acidentes e de mortes, que era um problema seriíssimo. Mas várias cidades da RMC adotaram os radares, com reclamações de que existe hoje uma indústria de multas.
Jurandir – Recentemente passei a 58km em um radar. Achei que a velocidade máxima era 60 km/h, mas era 50 km/h. Não percebi uma sinalização adequada e fui multado. Essas pegadinhas acabam tirando o valor desse sistema. O critério fundamental é instalar o radar somente nos pontos críticos. É preciso ter coragem também de tirar o radar quando se perceber que a situação naquele ponto melhorou, até para mostrar um grau de confiança na população. É necessária ainda uma margem de tolerância. O importante é multar os perigosos.
MUITO+ Qual a avaliação que o sr. faz da situação vivida por Campinas no momento?
Jurandir – Acho que está faltando às elites todas voltar a brigar por Campinas. Elite não é termo depreciativo. Temos a elite empresarial, cultural, esportiva, acadêmica, sindical, pessoas que estão no topo de suas carreiras, representando extratos da sociedade. As elites não devem ocupar o espaço político e não deixar que qualquer aventureiro se torne o mandatário de uma cidade que representa praticamente o segundo PIB (Produto Interno Bruto) do Estado. Na capital, tem movimentos fortes, da Mooca, da Avenida Paulista, do Centro, de Pinheiros. As pessoas participam, lutam, se envolvem. Esses movimentos não dependem do Estado, nunca estiveram atrelados a nenhum prefeito e estão conseguindo um sucesso tremendo. Em Campinas sai ano entra ano, a gente ouve um prefeito dizer que vai revitalizar o Centro. Um prefeito não vai revitalizar nada. Se a elite que quiser um centro revitalizado não tomar uma posição, não vai haver prefeito que vai mudar aquilo. Isso vale para tudo. Não é o prefeito, não é o Jonas Donizete (pré-candidato a prefeito pelo PSB), nem o Carlão Sampaio (pré-candidato do PSDB), nem o Dr. Hélio (pré-candidato do PDT). Qualquer desses daí vai administrar um condomínio da mesma forma que está hoje. Temos de deixar de pensar apenas nos mecanismos de Estado para encarar uma luta própria das elites de Campinas.