Campinas exporta celulares, máquinas pesadas, componentes eletrônicos e ...buchas vegetais. Sim. A Campinas, conhecida internacionalmente por seu avançado parque tecnológico e sofisticados equipamentos de última geração agregou mais este produto à sua lista de vendas no exterior. A pequena bucha vegetal, dessas usadas para higiene pessoal, bastante comum no interior do País, está conquistando seu espaço nas gôndolas dos mercados norteamericano, e já avança rapidamente em direção da Europa.
Ecologicamente correta, atóxica e higiênica, a bucha, industrializada em Campinas pela pequena empresa Bemarius Confecção e Comércio Ltda., apresenta as condições necessárias para agradar aos consumidores do mercado externo. O primeiro lote, com cerca de 600 unidades, foi embarcado em novembro do ano passado para os Estados Unidos.
O empresário Mário Luis Barbosa Pupo, sócio-proprietário da Bemarius, conta que a epopéia começou há 12 anos, quando decidiu fazer de uma plantação de buchas vegetais algo rentável. Industrializou a bucha e começou a vender, gradativamente, para o mercado local. O salto para os demais municípios da Região Metropolitana de Campinas, outras cidades paulistas e o Sul de Minas Gerais foi conseqüência.
As vendas cresceram, mas Mário queria expandir seus horizontes. Em 2001, durante viagem de visita à filha nos Estados Unidos, constatou que produtos semelhantes aos da Bemarius eram praticamente desconhecidos. “Visualizei a possibilidade de entrar neste nicho de mercado”, conta.
De volta ao Brasil, iniciou estudos para adequar o produto e o rótulo às necessidades do concorrido mercado norte-americano. Nesta etapa, teve forte apoio do Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sebrae) em Campinas, que ajudou a Bemarius a resolver os trâmites burocráticos. Para atender às exigências do mercado internacional, a bucha ganhou nova embalagem, com instruções sobre o modo de uso escritas em três idiomas.
O primeiro lote, com cinco tipos de produtos, entre elas as buchas vegetais, foi enviado para um distribuidor nos Estados Unidos. Devido ao pouco volume e peso, as unidades foram despachadas pelo programa Exporta Fácil, dos Correios. Esse sistema, segundo ele, permite que as buchas cheguem ao merca do externo com o custo de US$ 0,65 a unidade, uma grande vantagem em relação aos concorrentes, cujo preço final é de US$ 1,50. “Nosso produto permite uma margem de lucro de 100% para o comerciante”, diz. Orgulhoso do feito, o empresário foi convidado a apresentar seu “case” de sucesso durante o 67º Encomex (Encontros de Comércio Exterior), promovido pelo Mi-nistério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, no final do ano passado, em Campinas.
“Exportar não é coisa de outro mundo. Basta ousadia, boa dose de perseverança e descobrir em que nicho, ou país, seu produto pode ser bem aceito”, disse na ocasião, para uma platéia de empresários. É verdade que as vendas nos EUA ainda não atingiram o patamar esperado, um pouco pela falta de hábito dos americanos em usar as buchas vegetais e um pouco porque a campanha de divulgação não atingiu os objetivos esperados.
Mário, entretanto, não desanima. Enquanto aguarda o convite para enviar outro lote para os EUA, iniciou negociações com uma empresa especializada na distribuição de produtos na Europa, a V.O. Barten&Oldenburger. Segundo o empresário, a bucha tem chances de conquistar consumidores na Alemanha, Holanda, Bélgica, Itália e Luxemburgo.
“O fato de ser um produto ecologicamente correto é um ponto bastante positivo perante os consumidores europeus”, diz. Para reforçar ainda mais este conceito, Mário estuda usar como embalagem o plástico biodegradável desenvolvido por cientistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
A meta do empresário é, dentro de três anos, ter cerca de 80% da sua produção comercializada no exterior. A conquista do mercado externo é uma alternativa para fugir da inconstância do mercado doméstico.
Do ano passado para cá, as vendas de buchas caíram de dez mil unidades por mês, para seis mil e o faturamento mensal baixou de R$ 25 mil para R$ 15 mil. Em conseqüência , Mário foi obrigado a demitir quatro dos nove funcionários.
“Este é o nosso País, com altos e baixos, mas não podemos desanimar”, afirma. Hoje, a empresa tem representantes comerciais no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Goiânia, Minas Gerais, Pará, Piauí e Espírito Santo, além de São Paulo.
A Bemarius fabrica 60 produtos, entre pantufas, chinelos de bucha vegetal, roupões, lixas para unhas e pentes de madeira, sendo que as buchas vegetais respondem por 40% das vendas. A bucha é o fruto de uma trepadeira da família cucurbitáceas. Depois de colhida, passa por um processo de secagem e padronização.
Para Mário Pupo, que divide a sociedade com Elisabete Pupo Saldini, o importante é acreditar nos sonhos. “Não é difícil exportar. Sou sócio de uma pequena indústria artesanal que teve o sonho de exportar para o maior mercado do mundo e conseguiu. O mais importante é construir parceiras que ajudem a superar as dificuldades que sempre aparecerão”, aconselha.