Setecentas mil pessoas, o suficiente para lotar quase oito vezes o estádio do Morumbi, em São Paulo. Gente vinda de vários Estados do País. Caravanas. Pessoas de todas as idades. Pedidos de autógrafos. Um megashow de rock? Uma manifestação política gigante? Pode parecer loucura para um País com 10,9% da população formada por analfabetos, mas esse é o público que deve circular pela 18ª Bienal Internacional do Livro, aberta nesta quinta-feira, 15, em São Paulo.
O evento, um dos mais aguardados do mercado literário nacional, segue até o dia 25 com uma rica agenda cultural, que promete se estender para além das vertentes literárias: serão dezenas de palestras, seminários e debates, com personalidades do Brasil e do exterior.
“Em 2002, com a mudança da Bienal para o Centro de Exposição Imigrantes, a expectativa era de que o público, e até expositores, diminuíssem bastante. Mas esta expectativa não se confirmou, pelo contrário, foi um sucesso estrondoso, com um movimento de 600 mil pessoas”, diz, em entrevista exclusiva à MUITO+, Oswaldo Siciliano, presidente da Câmara Brasileira do Livro.
Siciliano está ainda mais otimista para o evento deste ano, incluído no calendário oficial comemorativo dos 450 anos da cidade de São Paulo. Lembrando a célebre frase de Monteiro Lobato: “Um País se constrói com homens e livros”, a realização de um evento do porte da Bienal Internacional do Livro representa sempre um desafio a ser superado. Isso, levando- se em conta as estatísticas. O mercado ativo no País se restringe a 17 milhões de pessoas alfabetizadas, acima de 14 anos, que compraram pelo menos um livro no último ano. Considerando uma população de 170 milhões de habitantes, isto significa apenas 10% da população. Outros dados do Ministério da Cultura são, no mínimo, preocupantes: a compra per capita anual de livros não-didáticos no Brasil é de 0,66% por adulto alfabetizado; 61% dos brasileiros adultos alfabetizados têm muito pouco ou nenhum contato com os livros; 6,5 milhões de pessoas das camadas mais pobres da população dizem não ter nenhuma condição de adquirir um livro; e de cada 10 não-leitores, sete têm baixo poder aquisitivo.
Desta forma, não se confirma o paradigma de que o brasileiro não gosta de ler. Recente levantamento do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) revela, ainda, que somente 9% dos jovens brasileiros entre 18 e 24 anos estão matriculados no ensino superior. Mais: na Bolívia, por exemplo, onde a economia é 61 vezes menor que a nossa, este índice é de 20%; e, na Argentina, 40%.
O que explica estes níveis? “O problema é que o brasileiro, antes de adquirir um livro, tem de satisfazer as primeiras necessidades, como habitação, saúde, alimentação e higiene. Nosso poder aquisitivo é pequeno”, observa Siciliano. Ou seja, para esta parcela da sociedade, o livro ainda é um artigo de luxo; ou, para ser mais realista, “artigo supérfluo” dentre as necessidades básicas.
A meta, portanto, é elevar a baixíssima marca de leitores ativos, aqueles que lêem uma média de quatro livros por ano. “No Brasil, o número de leitores ativos é de 26 milhões (30% da população alfabetizada). O índice de aquisição representa 1,8 livro por habitante”, afirma Siciliano. Só para se ter uma idéia, na França, a média é de sete; nos EUA, 5,1; na Itália, cinco; e, na Inglaterra, 4,9.
“Quando o brasileiro tiver real condição de poder aquisitivo, não tenha dúvida de que estes índices melhorarão. O governo está fazendo esforço para isso, mas, para tudo os custos são elevados. Eu sou otimista e digo que no máximo em 10 anos o País terá, no mínimo, o dobro de consumidores de livros que tem hoje”, diz Siciliano. Mas, por enquanto, a instabilidade da moeda mostra reflexo direto na produção e faturamento das editoras.
Os números apresentados no site do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel) confirmam esta tendência, numa pesquisa realizada conjuntamente com a CBL. O volume de títulos editados (39.800) caiu 3% em comparação ao ano de 2001 (40.900). Assim, como houve uma queda de 4% no faturamento do setor editorial: de R$ 2,27 bilhões em 2001 para R$ 2,18 bilhões em 2002. Isso desconsiderando as compras governamentais, que, segundo a Snel, está entre 50% a 60% da produção de obras didáticas.
Mesmo com este movimento, o mercado nacional conseguiu atrair o interesse de editoras estrangeiras, como a Planeta, da Espanha; a Larousse, da França; e também registra- se a compra da Editora Moderna pelo grupo Prisa-Santilha, da Espanha. “Isso só engrandece nosso mercado. O Brasil é um País livre, onde quem quiser investir é bem-recebido. Para nós, é motivo de orgulho. Se hoje nosso público leitor é de 26 milhões, a expectativa é de que isso dobre em 10 anos. Então, teremos um público ativo equiparado ao da Itália e Espanha. Estas editoras estão investindo a longo prazo”, explica Siciliano.
A Bienal tem atraído o público jovem. Em sua última edição, em 2002, um terço dos visitantes tinha menos de 15 anos de idade. Mais de 100 mil alunos de escolas das redes públicas e privadas visitaram o evento. A previsão é de que nesta edição este número seja ainda maior. À disposição dos leitores, nada menos que 320 expositores, representando 830 selos. Entre eles, sete do Exterior: Espanha, Portugal, Alemanha, França, Itália, Líbano e Japão. Uma verdadeira maratona para os apreciadores da boa leitura.
Para disputar o mercado infantil, muitos dos estandes transformam-se em verdadeiros centros de brincadeiras para as crianças, com brinquedos, palhaços, shows de mágica, personagens de fábulas infantis e contadores de histórias.
Ponto para as editoras, já que estimular o contato com o livro é essencial para a formação do jovem leitor. E para os pais que não privam os pequenos de um evento deste porte. “Como nossa preocupação é incentivar o hábito de leitura, teremos neste ano um número maior de atividades para crianças e adolescentes”, destaca Marina Lobello, vice-presidente da CBL. “Criamos um espaço diferenciado para as crianças, que podem viver, dentro de um livro gigante, em um espaço de 240 metros quadrados, a história de todos os povos que construíram São Paulo. Esta será mais uma homenagem aos 450 anos de São Paulo”, destaca Siciliano.