Quando se fala em uma viagem para a Holanda, o primeiro roteiro que se imagina é a agitada Amsterdã. Não é à toa que está entre os destinos mais procurados entre as cidades européias. Cheia de atrações para todas as faixas etárias e estilos de vida, não há quem tenha ido para Amsterdã e não tenha se apaixonado. Mas, como em toda a viagem, o interessante é descobrir encantos que, muitas vezes, podem passar despercebidos pela janela do trem. É o caso de duas cidadezinhas bem pertinho de Amsterdã, que parecem cenários de fábulas infantis: Delft e Gouda. E esta é uma das melhores estações – lá é primavera – para se visitar a Holanda, também famosa por sua enorme produção de flores, especialmente as tulipas.
A viagem da Central Station, estação ferroviária central de Amsterdã, até a medieval Delft leva 1h30. Não se impressione se, ao chegar, vir rodando pelas estreitas ruas de calçamento de pedras carros modernos e lojas com roupas de grife. Considere isso apenas um inevitável toque de modernidade, pois ali o turista irá entender bem o significado da palavra tradição. Logo percebe-se estar caminhando por séculos de história; é fácil imaginar tímidas donzelas a bordo de carruagens cruzando ruelas e cavaleiros elegantemente trajados andando tranqüilamente pela Markt, a praça central.
As telas do pintor Johannes Vermeer van Delft retrataram com riqueza de detalhes esse tempo, cenas de um passado ambientado numa arquitetura singular. Igrejas, museus e casas que séculos atrás serviram como fonte de inspiração para o artista ainda hoje encantam os turistas, que se misturam aos cerca de 120 mil habitantes.
Delft, mais importante das cidades históricas da Holanda, elevou-se à condição de cidade em meados do século 13. Seu nome homenageia o canal Delft, construído no período romano. No século 16, a cidade ganhou considerável impulso graças à Companhia das Índias Orientais e Ocidentais.
Com o declínio deste comércio, a cidade viu o progresso chegar com a construção da estrada-de-ferro, no século 19. São 800 anos de história onde passado e contemporaneidade se delimitam por entre os inúmeros canais, pontes, torres e monumentos. Bem preservadas lembranças desta época, possibilitando ao turista contemplar relíquias arquitetônicas seculares.
A melhor forma de se conhecer a cidade é a pé ou de bicicleta, meio de transporte muitíssimo utilizado em todo o país, cujo aluguel pode ser feito logo na estação de trem. Interessante também observar que em todas as fachadas dos prédios há placas indicando a data de fundação; no caso das residências, há ainda o nome do casal proprietário.
Se bater aquela fome, o turista pode dar-se o luxo de entrar em um restaurante do século 15, ou num mais moderno. Em qualquer um deles, os preços não são tão baixos. Então aproveite. E que tal experimentar a mais famosa panqueca do país? O restaurante Stads Pannekoeckhuis faz a tradicionalíssima iguaria, com diversas opções de recheios – doces e salgados.
Depois de saciar a fome, o turista pode começar o roteiro de visitas pela igreja Oude Kerk (igreja antiga), construída em 1240 e reformada em 1500. É enfeitada por vitrais de Joep Nicholas e uma obra de Vermeer, “The Kitchen-maid”. Outra igreja, a Nieuwe Kerk (igreja nova), em estilo gótico, levou 46 anos para ser concluída, tendo sido inaugurada em 1430. Saindo da igreja, visite o Market-place, prédio com fachada bem original, com janelinhas de madeira vermelhas. Outra fachada que chama a atenção é a Delfland, com a representação de brasões oficiais seculares. Antiga residência particular, construída em 1520, às margens do rio, atualmente funciona como prédio da prefeitura.
Outros pontos de visitação são o memorial em homenagem ao naturalista Antonie van Leeuwenhoek, descobridor da microbiologia; o Meisjeshuis (orfanato para meninas), erguido no século 18, e o Internato Van Renswoudehuis, inaugurado em 1759 por Maria van Duyst. Destoando da arquitetura antiga, o Phoenixstraat, o moderno prédio da prefeitura, fica em frente à estação de trem. Aqui, finalmente, você poderá ver um velho moinho. Mas a alegria vai durar bem pouco. Claro, o moinho está desativado, mas lá ao invés de farinha, há um pet shop em funcionamento. Mas não perca a foto, vale... de longe.
Antiga produtora de cerveja e tecidos, Delft também é famosa por sua porcelana. Na fábrica Koninklijke Fles, o visitante pode acompanhar todas as etapas de produção daquela internacionalmente conhecida porcelana azul. Eles fabricam uma variedade enorme de peças, como vasos, pratos, xícaras, potes, jarras e pequeninas peças decorativas. Já na Royal Delft, todas as peças são pintadas à mão. Os artesãos usam as mesmas técnicas e desenhos desde sua fundação em 1650.
Fábricas de faianças, como a Delftse Pauw e a Royal Delware De Porceleyne, também são abertas ao público. A casa do comerciante Lambert van Meerten foi transformada em museu e abriga uma grande coleção de peças, destacando-se as bonecas e azulejos.
Se estiver na cidade numa quintafeira, não perca a feira de porcelana. Esse é dia também da feira das flores, na região central da cidade. Pode-se comprar variadas espécies e suas sementes. As mais famosas delas, no entanto, são as coloridas tulipas. Vale a pena ir, mesmo se não for levar nada. É um ambiente festivo, colorido e cheio de gente bonita. (C.C)