Férias! Depois de ziguezaguear por meia hora pela estradinha de terra batida, chegamos finalmente ao destino programado. Um cachorro preto e enorme veio correndo ladeira abaixo em nossa direção. Ai Jesus, será que ele morde? Sem tempo de reagir ficamos ali, parados, esperando a lambida ou a mordida, estáticos. Para nossa sorte, saiu de um arbusto próximo uma cadela vira-latas alourada que distraiu a atenção do cão, que optou por mudar a rota e saiu em direção a ela, sabe-se lá por que súbitos devaneios.
Depois fomos apresentados aos donos da pousada e aos tais cães, cinco ao todo, contando o casal de humanos. Afinal, o receptivo cão preto, um Labrador de nome Nero, era boa praça e nos conduziu alegremente a todos os pontos turísticos do lugar. Sua namorada, a vira-latas loura de nome Moleca, seguia o grupo atenta à Bigle, a outra, se é que me entendem, que vinha respeitosamente mais atrás.
Naquele sítio afastado passamos um final de semana esquecidos dos ruídos urbanos, encantados de manhã com a placidez das águas da represa em frente à janela do nosso chalé e à noite com os vaga-lumes, de cuja existência nem nos lembrávamos mais. E ainda havia as estrelas, todas ali ao alcance do olhar.
Viajar, seja para perto ou longe, é sempre um afastar-se do óbvio. E isso é bom, me parece, já que a rotina nos anestesia um pouco.
De repente o sol se põe do outro lado da janela, o caminhão do gás não passa, a comida é outra, como são outros os sons, as luzes, os vultos. O que haverá depois daquela esquina, nova em nossa memória visual? O que guardará aquele armário nunca aberto nesse quarto onde outra cama, com outro cheiro nos espera?
Tudo, enfim, é outro. Sempre, ao colocar os pés na estrada, me vem um sentimento doce igual a quando havia circos e o palhaço parecia à espera de uma distração nossa para nos aprontar uma peça.
A cada nova estrada, a cada decolagem de um avião, minha respiração em suspenso me prepara para a morte ou para a vida – outra, diferente, cujo roteiro posso escrever mas não posso controlar. E essa sensação inesperada me põe à prova e me surpreende sempre com sustos e encantos que não se pode planejar.
Aqui um cachorro, ali uma cachoeira, acolá uma gruta sem fim, um azul diferente, um silêncio, umas caras, umas edificações. História e geografia sobre os quais nos falaram na escola, mas só nosso próprio olhar pode de fato apreender
Viajar é viver nossa vida de outro jeito, num outro c e n á r i o , temporariamente. Quem sabe possamos ser outros então, mais leves, temporariamente.
No filme Três Formas de Amar os três personagens centrais decidem se encontrar depois de 10 anos afastados após terem dividido um mesmo apartamento no alojamento na universidade. Cada um conta que tipo de recordação tem daquela época. Um deles descreve mais ou menos assim: foi incrível, como quando a gente entra errado numa bifurcação na estrada, sai por engano em outra cidade, que não constava do roteiro programado e que acaba sendo a melhor parte da viagem. Ou a mais gostosa de se contar.