O Brasil talvez seja o único lugar do planeta onde armas voam e aterrissam secretamente. Mais fantástico ainda: nadam de braçada, atravessam oceanos e desembarcam em terra firme, sem que os peixes sequer desconfiem. Pior: escondem- se em caminhões e atravessam cidades, Estados, num espantoso fenômeno de paranormalidade.
Agora, a realidade: como todas as mercadorias, as armas penetram em território nacional por ar, terra e mar. Um roteiro inescapável, a não ser que estejamos abrigando bases ocultíssimas de discos voadores, do tipo do seriado de Flash Gordon. Como, nesse caso, tudo indica tratar-se de fantasia juvenil ou de delírio de maluco, o assunto merece tratamento dentro dos padrões da normalidade.
Pois essa normalidade se está revelando nada normal. É de rotina um fuzil surgir nas mãos de delinqüentes, como tem acontecido? E metralhadoras aparecerem em cena de assaltos a casas, prédios, bancos? Um punhado de coisas está errado nessa história, a começar da falta de um eficaz programa de combate ao contrabando de armas.
Num país em que transportar um papagaio, ilegalmente, constitui crime pesado, por que não estender o mesmo castigo ao traficante ou receptador de armas? Com todo respeito aos ecologistas, parece insensato se dar tanta atenção ao contrabando de aves enquanto os instrumentos de morte e dor se espalham largamente.
Está evidente que existem buracos enormes na fiscalização de fronteira, nos portos e aeroportos.
Ah! O Brasil é muito grande..., alega-se. O Canadá e os Estados Unidos também o são, e exatamente por isso montaram uma guarda costeira com poder de fogo invejável. Custa caro operar esse esquadrão protetor. É verdade. Pois então que se estruture um corpo de vigilância marítima ao menos nas áreas de porto, notadamente em Santos, Rio de Janeiro e Paranaguá. E, no caso dos aeroportos, no Galeão, Cumbica e Viracopos, destino final das grandes cargas.
A despeito do latejante antiamericanismo que permeia segmentos da sociedade brasileira, deveríamos ser humildes (e sábios) o suficiente para admitirmos que, sem a colaboração dos Estados Unidos, o ideal de reprimir o contrabando de armas está longe de ser alcançado. Boa parte delas tem origem de venda na Flórida, com realce para Miami, de onde se espalha para o Cone Sul. Um acordo diplomático bilateral poderia impor restrições aos mercadores de desgraças. Uma firme pressão sobre países fronteiriços ajudaria a reforçar uma rede mínima de proteção.
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