Ano 1- Nº 5 - Campinas, Segunda-feira, 26 de abril de 2004

“O Brasil é prioridade e a RMC terá investimento”
Luciana Franco


“Não é baixando os juros do empréstimo que a pessoa vai comprar; é aumentando a renda e a estabilidade, fazendo a economia crescer”
CHRISTIANO MAZZOLA
Hélio Magalhães, presidente da American Express do Brasil, está otimista com o futuro promissor do mercado brasileiro de cartões de crédito, que deve crescer a taxas de 13% a 15% ao ano nos próximos três anos. Um otimismo que é projetado também para a Região Metropolitana de Campinas (RMC). “Só a cidade representa 6% do PIB do Brasil; se considerarmos a região, o índice chega a algo entre 11% e 12%”, diz, lembrando que a RMC é o sétimo mercado da Amex no País em volume de transações com cartão. Presidente da companhia desde 2001, ele acredita no potencial de crescimento que existe no País e aposta no aumento do setor, apesar da redução da renda.

Casado, pai de dois filhos, de 22 e 15 anos, Hélio trabalha quase dez horas por dia, razão pela qual se preocupa em ter atividade física regular. “Um executivo que não se cuida não consegue desempenhar bem suas funções”, diz. Faz uma hora de ginástica todas as manhãs e acredita que passou o tempo em que a empresa olhava com gosto pessoas que trabalham muitas horas por dia.

Hélio, que foi executivo do Citigroup durante 17 anos, é formado em engenharia pela The George Washington University, pós-graduado em informática pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio. Carioca, nos finais de semana costuma velejar em Angra dos Reis com a esposa e o filho caçula. “Não existe nada mais relaxante que sair de barco no mar num dia de sol”, diz este torcedor do Botafogo que, nesta entrevista exclusiva a MUITO+ fala sobre os planos da empresa para o Brasil e a Região Metropolitana de Campinas, o desempenho do mercado nacional, política de juros, aumento de renda e crescimento da American Express no País.

MUITO+ Quais os planos da American Express para o Brasil?

Hélio Magalhães – O Brasil é prioridade para a American Express. O País é o sétimo maior mercado de cartão de crédito do mundo, com taxa de crescimento anual de dois dígitos. Nós enxergamos aqui uma oportunidade muito grande de crescimento dos nossos negócios. Nós iniciamos um processo de investimento em 2002, que vai continuar por este e pelos próximos anos no sentido de construir um negócio que tenha uma alternativa de capturar o crescimento do mercado nacional.

MUITO+ Quais as estratégias de atuação no País?

Hélio – Basicamente, a nossa estratégia é, conhecendo bem nossa base de clientes, satisfazer a necessidade deles melhor que nossos concorrentes. Isto, aliado à qualidade de serviços, que é um elemento fundamental do nosso DNA. Prestar serviço de alta qualidade nos permitirá implantar uma estratégia de crescimento no Brasil. A empresa vem crescendo tanto em número de clientes como em faturamento em patamares superiores à média do mercado, o que nos mostra que mesmo trabalhando num segmento focado, é possível obter resultado positivo.

MUITO+ Como tem sido o desempenho da Amex no Brasil?

Hélio – No Brasil, nosso crescimento foi de 20% no ano passado, enquanto o crescimento global da companhia se situou em 15%. A empresa tem se destacado entre as financeiras e empresas de cartão de crédito como a companhia de melhores condições do seu negócio. Um crescimento global de 15%, considerando que o mundo inteiro se encontra em processo de recessão, é um resultado fantástico. Para este ano as perspectivas são excelentes. Estimamos que o crescimento nos Estados Unidos e América Latina seja bastante expressivo.

MUITO+ Como é o comportamento do mercado de cartão de crédito no Brasil?

Hélio – O mercado cresce em todo o País. São várias dinâmicas acontecendo ao mesmo tempo. Primeiro, as pessoas de baixa renda tendo acesso ao cartão de crédito, o que representa atualmente,no meio de pagamento, um percentual muito maior que o de antigamente. Esses componentes fazem com que o mercado esteja num crescimento contínuo. Quando a gente olha o Brasil, percebe que existem aspectos interessantes sob o ponto de vista regional. O Norte e o Nordeste sempre foram, proporcionalmente à sua capacidade de consumir, grandes usuários de cartão de crédito. O sulista é mais tradicional e conservador na utilização de cartão, assim como na utilização de produtos de crédito. De qualquer maneira, no Brasil há um crescimento previsto de 13% a 15% ao ano nos próximos três anos. O aumento se sustenta pelos novos clientes que estão entrando no mercado e na migração de pagamentos que antes não eram feitos no cartão.

MUITO+ Como é o mercado de cartão de crédito na Região Metropolitana de Campinas?

Hélio – Campinas é um excelente mercado, que se posiciona entre as dez cidades com maior potencial de riqueza. O Produto Interno Bruto (PIB) da região é alto e a renda também. Para nós, é um mercado muito interessante: o oitavo maior da Amex no Brasil, com um parque industrial importante e PIB enorme. Só a cidade representa 6% do PIB do Brasil. Se considerarmos a RMC, o índice chega a algo entre 11% e 12% do PIB do Brasil. Não é só um grande centro sob o ponto de vista da capacidade como também com grande potencial de crescimento. A localização é muito boa, a infraestrutura também. Dentro das nossas prioridades, a região demanda investimentos, tanto para conseguir novos clientes, como para expandir nossa rede de aceitação. A RMC é também nosso sétimo mercado no País em volume de transações com cartão.

MUITO+ Quais as expectativas do senhor para a economia brasileira?

Hélio – As perspectivas são positivas. Não tenho dúvida de que haverá crescimento este ano. Até porque o ano passado foi um período difícil e a economia andou de lado, teoricamente. Poucos segmentos cresceram, a maioria andou para trás. A dúvida é de quanto será este crescimento: se vai ficar em torno de 3% ou mais perto de 4%, mas a trajetória aponta para um desempenho positivo. A grande questão é o que viria depois. Ou seja, se estamos numa tendência de crescimento sustentável ou não. É neste ponto que eu tenho algumas dúvidas, pois acho que serão necessárias algumas ações para que sejam criadas no País condições de crescimento sustentável de longo prazo, o que passa por atrair investimentos e garantir que eles terão retorno, além de todas as questões que a gente tem ouvido em termos de regulação de alguns setores e em termos de impostos.

MUITO+ Haverá crescimento de renda? E da oferta de crédito?

Hélio – O aumento de renda será o principal desafio. O poder aquisitivo do brasileiro vem caindo substancialmente nos últimos três anos, e o processo de reversão desta tendência passa pela geração de emprego e a criação de novas oportunidades para as pessoas poderem ganhar mais. Essa reversão, entretanto, é problemática. Não vejo uma articulação perfeita por parte do governo. Existe ainda receio por parte dos investidores em efetivamente, num momento como este em que você tem vários pontos de interrogação, fazer investimentos. Existem já algumas coisas acontecendo, investimentos sendo realizados, mas não em volume suficiente para aumentar a renda e para gerar novos investimentos. O governo disponibilizou no ano passado várias linhas de crédito através dos bancos estatais, principalmente Banco do Brasil, mas muito pouco do dinheiro ofertado foi utilizado, o que indica que a pessoa física precisa ter renda para tomar crédito.

MUITO+ Os juros interferem neste processo?

Hélio – Eu acho que os juros fazem parte do contexto em geral. Quanto menor a carteira, maiores têm que ser os juros para cobrir as perdas. Quanto maior o desemprego, maior a perda, maiores os juros. Estas coisas estão relacionadas umas com as outras. Vai até para o processo da regulamentação.Hoje o Brasil já sabe que tem que mexer na lei das falências, porque uma empresa que faliu não paga o credor. O mesmo se aplica aos produtos financeiros. Fazer a recuperação de um bem financiado no Brasil demora um ano e meio. Este prejuízo passa para a taxa de juros. O ideal de todo agente financeiro é ter as taxas baixas, para ter o volume alto. O retorno é um produto entre taxa e volume. Crédito ao consumidor no Brasil, hoje, representa 18% do Produto Interno Bruto (PIB), incluindo financiamento de automóvel, crédito pessoal, cheque especial, cartão de crédito. Num País com uma economia normal, isso representa 80% do PIB. Em países europeus, o crédito ao consumidor chega a representar entre 120% e 130% do PIB. Isso mostra que temos uma oportunidade enorme de crescer e fazer com que o crédito passe a ser uma mola propulsora da economia, mas isso é uma conseqüência, não é uma causa. Não é baixando os juros do empréstimo que a pessoa vai comprar o carro, é aumentando a renda, aumentando a estabilidade, fazendo a economia crescer. Isso tudo coordenado em conjunto é que vai fazer as condições do Brasil melhorar.

MUITO+ Existe uma onda de fusões e aquisições no mercado internacional. No Brasil também existe esta tendência?

Hélio – Isso é irreversível. As consolidações e as fusões acabam representando uma grande oportunidade de reduzir custos, ter complementação de produtos e atingir novas bases de clientes, e com isso melhorar a margem da empresa. As fusões e aquisições estão sendo instrumentos para sobrevivência de algumas empresas e para a melhoria de margem de outras. O mercado financeiro não é exceção a essa regra. E o Brasil não está fora desta regra. O mercado financeiro do Brasil tem registrado uma série de aquisições nos últimos tempos, com uma exceção na forma como elas estão acontecendo. Normalmente os bancos estrangeiros adquirem os locais e no Brasil estamos vendo bancos locais adquirindo instituições estrangeiras. Isso mostra o tamanho e a eficiência dos bancos locais, principalmente dos grandes bancos de varejo. Dentro da estratégia mundial da Amex existe também um conceito de aquisição. No ano passado adquirimos uma grande empresa de gestão de investimentos na Inglaterra, um negócio que já temos nos EUA, mas não tínhamos na Europa, e evidentemente que estamos olhando de maneira atenta as oportunidades que possam surgir em 2004.



Publicado em 26 de abril de 2004







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