Publicado em 19 de abril de 2004

Eu odeio...

Sites criados especialmente para falar mal de celebridades multiplicam-se na Internet e dão espaço aos desabafos

O estudante gaúcho Henrique, de 16 anos, já estava enjoado do seu blog sobre rock, de falar de bandas e música. Um dia, navegando pela Internet, descobriu um outro site, criado exclusivamente para falar mal do ator Fabiano Augusto, o garoto propaganda das Casas Bahia. “Surgiu a idéia de generalizar tudo. De odiar tudo o que é revoltante, fútil e ruim”, explica. Nascia, então, o “Eu Odeio... Aqui, artista não tem chance”, um blog que não perdoa ninguém e que tem o slogan “Pensando no seu bem-estar cerebral”.

Henrique e Marcelo, seu amigo e também participante do site, têm uma longa lista de desafetos, que passa pela empresária Marlene Mattos, pela dupla Sandy e Júnior, de Campinas, pelo cantor Felipe Dylon e o apresentador Gugu Liberato. E, é claro, Fabiano Augusto não fica de fora. “Ele é muito chato. Eu não agüento ver, ouvir esse cara. Sinto revolta”, esbraveja. O alvo favorito do amigo Marcelo, de 17 anos, é o cantor Zeca Pagodinho. “Odeio esse cara!”

Assim como os dois estudantes, milhares de jovens e adultos descobriram na Internet uma maneira divertida de tornar pública a sua raiva ou revolta. Na última semana, quem fizesse uma busca através do Yahoo encontraria nada menos do que 390 mil endereços localizados com a combinação das palavras “eu odeio”. No Google, estavam outros 69.600 endereços. Prova inquestionável de que os sites daqueles que odeiam alguém ou alguma coisa se tornam, a cada dia, mais populares e ganham mais adeptos.

Principalmente porque não é preciso mais ser um especialista em linguagem de Internet para criar sites. Com o surgimento dos blogs, os chamados diários virtuais, as pessoas conseguem, de maneira simples, criar seus próprios sites e publicar quantos comentários quiser, com a possibilidade de incluir fotos, montagens e outras brincadeiras, algumas bem maldosas.

Há sites que odeiam artistas, empresas, produtos, profissões e situações. Um deles, o Mundissa, tem um espaço “onde os chatos se reúnem”. E ali vários participantes resmungam. “Odeio lavar panelas. Odeio lavar pratos. Odeio ter alergia a detergente e odeio minhas irmãs rasgando as luvas que eu compro”, reclama Clarice. “Odeio pessoas que imitam as outras, seja no jeito de falar, de andar ou de cuspir”, comenta Calvin. Há um outro blog que se dedica a odiar táxis, e outro que combate os “espertos” do País.

E há aqueles que resolveram investir na paixão ou ódio pelos times de futebol. O site “Eu Odeio Este Time” faz enquetes periódicas sobre os times mais odiados do País, distribui piadas, desenhos e sátiras sobre os adversários. Para os donos do site, trata-se de uma briga saudável e engraçada. E há um espaço especial para os torcedores colocarem os piores comentários a respeito dos rivais. E não poderiam faltar espaços para Ponte Preta e Guarani, de Campinas. Curiosamente, na área dedicada a falar mal da Ponte Preta há vários comentários. A do Guarani está praticamente em branco.

Falar mal de pessoas e situações pela rede não é novidade. O primeiro site do tipo apareceu no final da década de 90, durante a novela Por Amor, da Rede Globo, e que falava mal de Maria Eduarda, personagem mimada interpretada pela atriz Gabriela Duarte. Anos depois, apareceu o site “Eu Odeio o Galvão Bueno”, criado durante a Copa do Mundo de 2002, e que trazia todos os dias atualizações sobre as bobagens ou erros cometidos pelo locutor durante as transmissões dos jogos do Brasil.

Recentemente, o site que odeia o garoto-propaganda das Casas Bahia também ganhou espaço na mídia. Chegou até aos ouvidos do próprio Fabiano Augusto, que se disse chateado com a iniciativa. Os criadores do site, porém, cansaram de odiar o ator e pararam de atualizá-lo.

Do primeiro site que odiava Galvão Bueno formou-se um pequeno grupo de dissidentes, que decidiu seguir carreira-solo. O grupo pegou o gosto pela coisa, e o que era para ser um, acabou se multiplicando em vários blogs. Os rapazes hoje se dedicam a falar mal de várias personalidades da imprensa esportiva e da TV em geral pela net, através dos sites “Malas da TV”, “Malas do Esporte”, “Eu Odeio o Gilberto Barros” e “Jorge Kajuru e seus amigos”. Os dois últimos sites referem-se aos apresentadores da TV Bandeirantes, um de programa de auditório e o outro de um programa esportivo.

Nestes sites, os participantes – que nunca se viram pessoalmente e moram em diferentes Estados – destilam veneno e inventam apelidos pejorativos. A apresentadora da Rede TV, Luciana Gimenez, virou “Lucianta”. Adriane Galisteu, “Galinheu”. “É uma espécie de desabafo. Você não pode chegar para um órgão de comunicação e dizer que não concorda com o que ele faz, que não engole as verdades deles. Pela Internet é possível fazer isso. E é divertido”, diz um dos participantes, cujo apelido é Davidkiller, de 35 anos e que mora no Rio de Janeiro. “Quando eu tiver mais tempo, estou planejando criar o site ‘Odeio Muito Tudo Isso’, onde poderei falar de todas as coisas que eu não suporto”, acrescenta.

Além de Jorge Kajuru, outro jornalista esportivo que não escapa da ira dos rapazes é o apresentador Milton Neves, da Rede Record. “Ele é bairrista. Fala do futebol de São Paulo como se fosse o único que existisse no mundo. Ele é chato, criador de caso. Exalta os jogadores do Santos e detona o resto. É um mala”, acrescenta Davidkiller.

É curioso o fato de algumas pessoas se prestarem a assistir ou acompanhar o que acontece com personalidades que elas simplesmente detestam. E não só isso. Elas gastam tempo com a atualização dos sites, para manter os anti-fãs informados. A justificativa é a mesma para todos: para poder falar mal.

“Eu comecei a ver o maior número de programas que meu estômago permitisse, para falar sobre a péssima qualidade deles, dos apresentadores e dos repórteres. Também postava notícias sobre novos programas, demissões, críticas de jornais e sites”, diz outro participante, Nando, que mora em Rio Claro, a 70 km de Campinas. “A gente acaba se divertindo com isso, mas é um desabafo contra a péssima qualidade da TV”.

“Não se pode odiar alguém que não se conhece. O ódio que essas pessoas sentem e demonstram, na verdade, é inveja”, afirma o psicólogo Ivan Capelatto, de Campinas. “Mas não é inveja do artista em si, e sim do poder que ele tem. É a frustração de ver que alguém que elas consideram terríveis tem sucesso, são bemsucedidas. E os sites, na verdade, é uma espécie de destruição simbólica daquilo que elas invejam”.

Os criadores e participantes de sites desta natureza não gostam de se i d e n t i f i c a r . Temem processos judiciais ou dores de cabeça causadas pelas pessoas que eles xingam virtualmente. Ou mesmo de serem incomodados pelos fãs destes artistas. Foi o que aconteceu quando Henrique decidiu falar mal do falecido vocalista Kurt Cobain, da banda de rock Nirvana. “Caiu o mundo em cima de mim. Me xingaram até não poder mais”, conta o estudante, que disponibiliza o número de ICQ no site para trocar idéias com outros adeptos dos seus desafetos. “Eu dei risada da situação.”

Mas assim como aconteceu com o blog que odiava Fabiano Augusto, muitos dos sites têm curta duração. Boa parte dos seus participantes logo enjoa do site, fica sem tempo para atualizá-lo ou perde a paciência de ficar acompanhando seu objeto de ódio. “Uma hora eu posso enjoar dos blogs e me dedicar a outros hobbies”, diz Márcio, um dos criadores dos “Malas da TV”, que diz preferir jogar games e ler quadrinhos japoneses.

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