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Matéria publicada em 07 de novembro de 2006


Muro da Traição
Por Mauro Ribeiro

Em 1961, o então presidente John Kennedy fez um apaixonado discurso em Berlim, exortando os chamados povos livres a combater a tirania soviética, cujo símbolo maior, na época, era o Muro de Berlim, mais conhecido como o “Muro da Vergonha”. Foi sob esse nome aviltado e aviltante que a muralha separando as duas Alemanhas entrou para a história. Vivia-se o clímax da Guerra Fria, período em que bandidos dos dois lados posavam de xerifes, na ânsia megalômana de dominação de mentes e corpos Urbe et Orbis.

Pois bem. O muro foi derrubado pela força incontrolável da vontade do povo alemão (e uma ajuda não desprezível da incompetência do sistema soviético de governança). Os órfãos de Moscou escoaram cachoeiras de raivosas lágrimas, os otimistas brindaram o acontecimento como a descida dos anjos do Céu, os pessimistas identificaram maus agouros naquele ruir de pedras de concreto, os céticos se limitaram a coçar a cabeça.

Vitória dos pessimistas. Decorridos menos de 40 anos, o sábio dos sábios George Bush inventa o Muro da Traição (o batismo corre por conta do autor). Ele tomará forma de uma espécie de muralha e de rede eletrificada, com extensão de quase 1,2 mil quilômetros, isolando literalmente quatro estados norte-americanos do perigoso povo do México. Custará mais de 1 bilhão de dólares.

No entender do gênio que ocupa a Casa Branca, trata-se de uma providência eficaz para desestimular a imigração ilegal originada do território mexicano. Bullshit. Não se conhece, na História, nenhum ato isolado ou conjunto de medidas coercitivas que inibam a imigração. É da natureza das gentes se deslocar para onde acham lhes ser de melhor proveito. Os alemães orientais sabiam dos riscos de morrer, mas se aventuravam sempre na tentativa de chegar à Alemanha Ocidental.

Prisioneiro que não tenta fugir é um falido moral, desprovido da mínima auto-estima. Os mexicanos e outros povos que escolhem a extensa fronteira do México (mais de 4 mil quilômetros) para tentar entrar nos Estados Unidos, passarão a ter a sensação dos encarcerados. Antes havia a miragem; quando o muro estiver erguido, identificarão nele uma cadeia imaginária, e tenderão a reagir como todo preso: escapar. Ou seja, pular para o outro lado.

As correntes migratórias são tema complexo demais para receber tratamento policialesco. No caso norte-americano, o assunto envolve particularidades múltiplas, nem sempre avaliadas com bom senso. Ao contrário, a hipocrisia pessoal e o oportunismo político-eleitoral se abraçam aqui e acolá, impedindo uma correta apreciação do problema. Examine-se a questão sob um prisma econômico. A força de trabalho dos imigrantes, nos Estados Unidos, responde por fatia significativa da produção de bens e serviços. Seja ela ilegal, seja já formalizada.

Um indicativo dessa força: em setembro, houve uma tentativa malograda de entidades representativas dos imigrantes de realizar uma greve geral. Mas, a simples ameaça deixou em pânico o governo Bush, que foi duramente pressionado por empresas que utilizam mão-de-obra importada a abortar o movimento.

Tramitam, no Congresso norte-americano, dois projetos-de-lei sobre imigração. Um deles, ironicamente, originário da própria Casa Branca, representa um avanço na matéria, ao conceder incentivos à imigração legal e abrir portas para a regularização dos milhões dos clandestinos, incluindo centenas de milhares de brasileiros. Mas, a coisa emperrou por causa das eleições de hoje (7 de Novembro) - ao escrever estas notas, desconheço os resultados da votação), quando o Partido Democrata tem chances consideráveis de ganhar a maioria nas duas Casas.

O oportunismo eleitoreiro apressou a decisão de Bush de autorizar a construção da muralha fronteiriça. Pode ter sido um tiro no pé: os imigrantes com direito a votar reagirão com o silêncio da escolha solitária e fulminante nas urnas. Como o voto, nos Estados Unidos, não é obrigatório, os nativos preferem a orgia dos shoppings ou o churrasco nas frigideiras elétricas. O comparecimento dos imigrantes, ao contrário, costuma ser significativo (desde 1964, por exemplo, que os sucessivos prefeitos de Miami descendem de cubanos). Se esse quadro se repetir, a vingança contra os republicanos simbolizará um repúdio claro ao comportamento de Bush e de seus colegas de partido na questão migratória.

Por que Muro da Traição? Seguramente, não foi isso que Washington, Jefferson, Hamilton, Adams, Benjamin Franklin, Lincoln, Rooselvelt sonharam para seu antes tão grandioso e generoso país.

E-mail: mauroribeiro@mmais.com.br


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