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Matéria publicada em 11 de novembro de 2006


O inferno dos fariseus
Por Mauro Ribeiro

Um dos efeitos colaterais mais formidáveis da recente vitória do Partido Democrata foi a desmoralização dos chamados teocratas que fazem a cabeça do presidente Bush. Numa prova provada de que o Criador está vigilante, pronto para castigar as raposas travestidas de meigos carneiros, os principais líderes do conservadorismo político norte-americano sofreram monumentais derrotas, no plano político e no âmbito pessoal.

Ted Haggard, presidente da Associação Nacional dos Evangélicos, levou a bordoada mais forte. Puritano radical, ele liderava a campanha contra o casamento de pessoas do mesmo sexo, exibindo e demonstrando uma força mobilizadora que assustava: 30 milhões de afiliados. Pois foram nos braços musculosos de um garoto de programa que Haggard encontrou seu cantinho no inferno. Tentou desmentir a relação, mas os holofotes do Céu iluminaram as pistas que o levaram a produzir seu mea-culpa. Existe uma parte da minha vida tão repulsiva e escura que eu carregarei por toda a minha vida adulta- declarou o falso beato, ao admitir a promiscuidade.

A ira do Criador voltou-se, no terreno político, contra o senador Rick Santorum, derrotado na disputa no estado da Pennsylvania. O parlamentar de origem italiana era uma espécie de centroavante do time reacionário do Senado, onde pontificava com discursos contra tudo o que, mesmo de longe, simbolizasse relaxamento dos valores morais da sociedade norte-americana. Atingiu, também, Kenneth Blackwell, um afro-americano que perdeu feio as eleições para o governo do Ohio.

Esses são os efeitos, digamos, contabilizados até aqui. Resta aguardar os desdobramentos psicológicos sobre o rebanho que gravitava em torno dessas e de outras figuras, que fizeram do Partido Republicano seu ninho de acasalamento do ódio contra as minorias com o combate ao avanço social e das ciências. Santorum, por exemplo, pressionou Bush a vetar as pesquisas com células-tronco.

A vitória dos democratas não significa que a influência das diversas correntes religiosas desaparecerá da vida política dos Estados Unidos. Deve ser interpretada como um avanço das alas que oferecem uma plataforma mais moderada nessa questão.

Seria bem recebida a vigilância do Criador nas próximas eleições brasileiras, o que talvez impeça que bispos sem batina ganhem mandato parlamentar, e, depois, ingressem no clube da gatunagem.


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