![]() |
|
|
Esquizofrenia Por Mauro Ribeiro E eu que pensei já haver visto de tudo nessa sôfrega caminhada da vida. Monumental engano, típico dos crédulos e ingênuos. O fato: uma aeromoça de uma empresa norte-americana expulsou de bordo uma mulher que amamentava o filho. Deu-lhe a ordem fulminante, irrecorrível, a despeito das lágrimas da senhora e dos gemidos de fome do bebê. Pior que a sentença, foi a passividade dos demais passageiros, afora a omissão do comandante do avião. O evento poderia ser escondido em algum cantinho de uma página irrelevante de jornal de província, como, digamos, se tratasse de um gato que roubou o peixe da vizinha. Mas, a reação de centenas de mães, nos Estados Unidos, indo aos aeroportos para dar de comer aos filhos com o imemorial leite da vida, causou um efeito trampolim: o caso saltou às nuvens e fincou-se nas passarelas das capas de matutinos e vespertinos no mundo inteiro. Por que dedicar tempo e espaço a tal episódio? Por que ele é grave, pelo simbolismo que traz em si. Um simbolismo carregado de intolerância, que expõe os Estados Unidos a mais um da infindável série de ridículos (e perigosos) atos de pseudomoralismo que tomou conta do país, depois do 11 de Setembro. Quer dizer que a simples e furtiva exibição de um seio em público, a serviço do bem maior que é a vida de uma criança, atenta contra os costumes e a ordem pública? Nem a Santa Inquisição ousou chegar a tais extremos: as obras renascentistas estão repletas de madonas de seios à mostra, e nem por isso os grandes mestres foram intimados a depor, ou expulsos de aviões, quero dizer, dos palácios e igrejas. Cá para mim, tenho a impressão de que a mídia norte-americana está arrependida de seu incondicional apoio às medidas adotadas por Bush, logo depois do atentado às torres do World Trade Center. O engajamento dos jornais, rádios e televisões na campanha patriótica contribuiu para a disseminação de um sentimento de intolerância a tudo que seja diferente dos clássicos padrões da sociedade americana. E ajudou a sedimentar, por meio das entidades religiosas, especialmente as evangélicas, posições radicais em defesa da chamada moralidade latu sensu. Esse subproduto está assumindo proporções alarmantes, como se constata no furor da aeromoça. Será que essa criatura não mamou no peito, quando criança? Seria algum tipo de regressão punitiva? Ou os pais dela aderiram cedo ao veneno dos fast food, e amamentaram-na na rede McDonald? Os reflexos dessa maré montante de fundamentalismo começam a mexer nos bolsos dos ávidos agentes econômicos, especialmente os do setor de serviços e de turismo. E talvez seja daí que surja alguma esperança da volta dos Estados Unidos à normalidade da convivência civilizada. Uma pesquisa realizada por um instituto do próprio governo norte-americano constatou o que até os peixes do Potomac já sabiam: o país sofre de crescente rejeição da grande maioria dos povos do mundo inteiro. A investigação centrou sua preocupação na queda do fluxo de turismo estrangeiro para os Estados Unidos, e quis saber suas causas. As respostas negativas foram esmagadoras, contra a má educação e a arrogância dos agentes da imigração, a dificuldade de obtenção de visto de entrada, e contra o complexo de superioridade dos nativos. Os subprodutos da pesquisa revelaram um panorama ainda mais medonho: 60 por cento dos entrevistados disseram que não viajariam aos Estados Unidos, com medo de ser presos logo na chegada, sem motivo algum ou pretexto nenhum, ao bel-prazer do estado de humor do pessoal da Imigração. Pior: sem direito a um reles telefonema de apelo a um advogado... De fato, viajar para um país com direitos universais de cidadania tão restritos constitui uma temeridade. Imaginemos a cena: na imigração, o oficial de plantão rejeita sua entrada, sem nada justificar para a negação. O que fazer? Nothing at all. Um amigo meu, com parecença física com árabes, desistiu de levar os filhos à Disneyworld. Um outro, de rosto e cor caucasianos, mas com sobrenome muçulmano, foi mandado de volta na hora, sem tugir nem mugir. É ato soberano das nações se protegerem como melhor lhes aprouver. Mas, acho que Bush levou a extremos irrazoáveis o seu radicalismo, situação que os próprios norte-americanos começam a perceber. Se viajam ao exterior, podem ser caçados a porrete, no simples revelar a cidadania. Perdem seus empregos ou deixam de conseguir uma vaga de trabalho, por que os estrangeiros estão evitando lá ir. Os Estados Unidos deixaram de receber 15 milhões de turistas, em 2005, em comparação com o ano anterior. No último qüinqüênio, as companhias aéreas norte-americanas perderam a cósmica quantia de 35 bilhões de dólares. Quando o prosaico gesto de dar de mamar a uma criança começa a causar comoção numa nação, duas de uma só coisa podem estar ocorrendo: o país está doente, e doentio é o país. |
|
|