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O destino da cueca Por José Francisco Pacóla
E tinha razão. Pouco depois, um jovem foi preso com 428 comprimidos de ecstasy na cueca. E, mais recentemente, um índio cinta-larga da Reserva Roosevelt, em Rondônia, foi flagrado com 70 pedras de diamante escondidas onde? Lá mesmo, na cueca. No meu tempo, cueca era usada para proteger o que nós, homens, consideramos nosso bem mais precioso. Só isso. Deixava o bicho ali, protegido, livre de ter a pele presa pelo zíper da calça, o que dói pra cacete, literalmente. Mas aí inventaram de deturpar o uso da peça, como já haviam feito, por exemplo, com a energia atômica, que virou arma de extermínio, e o lápis, que se transformou em enfeite de orelha de português de padaria e prendedor de cabelo de mulher. Transformaram a cueca em recipiente de transporte de valores, como se aquilo que é desde sempre transportado pela cueca não tivesse mais a mínima importância. Até índio entrou na dança. E eu que acha que índio ainda não usava cueca. Nesse caso, pior ainda porque se era um cinta-larga, porque esconder os diamantes na cueca e não na cinta, onde deveriam caber muito mais pedras? Vai saber... Cuecas são sempre intrigantes. Um amigo, Pedrinho, passou uma semana em Nova York e conseguiu comprar apenas uma cueca. Considerando-se as despesas com passagem aérea, estadia e refeições, é a cueca mais cara que conheço. Se tivesse comprado na Daslu teria saído mais barato. Mas talvez o sonho dele fosse comprar uma cueca em Nova York e só isso lhe baste. Descobri que o Instituto de Pesquisa de Aço de Moscou desenvolveu uma cueca-samba canção com 7 placas de aço que podem desviar uma bala de pistola disparada apenas 5 metros de distância. Deve ser ótimo para marido de mulher ciumenta flagrado com a amante. O problema é que pesa quase 10 quilos. Já um alfaiate indiano com ateliê em Hong-Kong criou uma cueca high-tech. É uma cueca descartável que, uma vez vestida pelo cliente, transfere para o computador as medidas da cintura, coxa e quadril. Evita que o alfaiate fique colocando a fita métrica gelada nessas partes do corpo. Juro que jamais imaginei que chegássemos a tal ponto. Quando criança, cueca, para mim, era presente garantido de avó e motivo para ficar cantando "Tô com pulga na cueca/Já vi/Vou coçar", paródia tupiniquim da música "Pata-Pata", sucesso da cantora sul-africana Miriam Makeba. Depois, já adulto, aprendi que o pior que poderia acontecer era batom na cueca. Agora, ficam inventando essas coisas. Francamente. Talvez o melhor mesmo seja criar o bicho solto.
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