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Matéria publicada em 26 de outubro de 2005


Cortador de cana morre por excesso de trabalho

Foi fulminante: depois de cortar 410 metros de cana, o que equivale a cerca de 25 toneladas, o trabalhador José Mário Alves Gomes, o “Timba”, de 47 anos, natural de Araçuaí, interior de Minas Gerais, caiu morto ao chão de uma das lavouras de cana de Rio das Pedras, próximo de Piracicaba, na tarde de sexta-feira, dia 21 de outubro. Ele ainda foi socorrido por um ônibus e levado para a usina Santa Helena, do Grupo Cosan, para quem o cortador trabalhava, mas o socorro foi inútil."Numa avaliação preliminar estou convencido de que a morte ocorreu por excesso de trabalho, conseqüência do pagamento por produtividade", declarou o Procurador do Trabalho Aparício Querino Salomão, da Procuradoria do Trabalho da 15ª Região.

A constatação foi feita durante diligência do Ministério Público do Trabalho (MPT) terça-feira, 25 de outubro, realizada em conjunto com a Sub-Delegacia do Trabalho de Piracicaba, com acompanhamento de sindicalistas da Feraesp (Federação dos Trabalhadores Rurais Assalariados do Estado de São Paulo) e da Plataforma Brasileira Dhesc (Direitos Humanos, Econômicos, Sociais e Culturais), Organização Não Governamental que reúne mais de 60 entidades de direitos humanos em todo o Brasil, segundo texto divulgado pela assessoria de imprensa da Procuradoria Regional do Trabalho da 15ª Região - Ministério Público do Trabalho.

A morte de Timba é a décima primeira em condições semelhantes desde o ano passado, denunciadas pela Pastoral do Migrante de Guariba. O diagnóstico, na grande maioria dos casos, é de parada cárdio respiratória, mas a suspeita é de que seja “birola”, denominação dada pelos trabalhadores rurais aos sintomas que levam à morte por exaustão decorrente do excesso de trabalho.

O excesso de trabalho foi confirmado por um dos trabalhadores do alojamento Jibóia, localizado próximo às colheitas e que abrigava Timba e mais 130 trabalhadores, a maioria de Salinas e Araçuaí. “A gente tem horário para sair, 5h30, mas não tem para voltar. Às vezes voltamos cinco, seis horas da tarde, e não nos deixam parar para descansar ou comer”, reclamou o trabalhador João Batista Alves Barbosa, também de Araçuaí e que sentiu sintomas da birola. “Eu também fiquei doente de repente. Aquele pó que a gente respira arrasa a gente”, declarou.

Segundo ele, os trabalhadores que querem ir embora são impedidos. “Eles só deixam a gente ir embora quando termina a safra”, denunciou. As condições do alojamento são razoáveis, com quartos geminados que possuem banheiro para cada oito trabalhadores, e local com chuveiros. Mas para o Procurador Aparício Querino Salomão, o principal problema parece ser mesmo o excesso de trabalho. “Eles trabalham por produção e quanto mais cortam mais ganham. No esforço de ganhar mais acabam adoecendo”, avalia.

MPT DESARMA CAMINHÃO BOMBA

A fiscalização do MPT e de um grupo móvel do Ministério do Trabalho flagrou nesta terça-feira na fazenda Liberdade, município de Rincão, um caminhão comboio adaptado para transportar combustível em situação totalmente irregular. O caminhão, com baú de metal, era usado para abastecer a frota da colheita de cana da usina Maringá, de Araraquara.

O engenheiro Marcos Ribeiro Botelho afirmou que o caminhão era uma verdadeira bomba, prestes a explodir. “Havia doze tambores de 200 litros de diesel amarrados precariamente por cordas e uma bomba com fiação exposta, que poderia facilmente explodir com uma faísca que detonasse os gases acumulados no baú”, avaliou.

O extintor também estava amarrado por cordas, denunciou o engenheiro. O caminhão foi interditado e a usina autuada pelo Ministério do Trabalho. O MPT e a ONG Dhesc promoveram hoje, no Campus da USP em Ribeirão Preto, uma audiência pública sobre os casos ocorridos em lavouras de cana da região. Aconteceram depoimentos comoventes de trabalhadores que são explorados por gatos nas lavouras da região. O relatório da ONG Dhesc deve ser divulgado em dois meses.



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